Uma noite que era para ser de homenagem terminou em luto na rede municipal de ensino de Marechal Cândido Rondon. O professor Rafael Hoppe, de 42 anos, morreu na noite de quinta-feira (15) depois de sofrer uma parada cardíaca durante a confraternização do Dia do Professor, promovida pela Secretaria Municipal de Educação na Casa Cultural, no Parque de Exposições.
Por volta das 22h30, Rafael passou mal. O que veio depois é o que agora inquieta quem estava lá.
Ainda durante a noite, o blog recebeu mensagens de professores que presenciaram a cena. Os relatos coincidem em três pontos:
O primeiro: o socorro levou cerca de 20 minutos para chegar.
O segundo: havia brigadistas contratados para o evento, mas, segundo esses relatos, nenhum deles tomou a iniciativa de iniciar a massagem cardíaca.
O terceiro: quem assumiu a reanimação foi outro professor, que sozinho, manteve as compressões durante todo esse tempo, até a chegada da equipe.
A nota oficial da Secretaria de Educação conta outra história. Diz que “socorristas que estavam presentes prestaram os primeiros atendimentos, realizando manobras de reanimação até a chegada das equipes do Corpo de Bombeiros”. Apesar dos esforços, a morte foi confirmada depois, em um hospital da cidade.
As duas versões não cabem no mesmo salão. E é aí que mora a pergunta que precisa de resposta.
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O que diz o contrato
O blog consultou o Diário Oficial do município. A Prefeitura tem duas empresas contratadas para esse tipo de serviço. Uma atende diretamente a Proem e cuida dos eventos organizados pela fundação, como a Expo Rondon e a Oktoberfest. A outra tem contrato de âmbito geral, para os eventos de toda a Prefeitura.
O contrato foi assinado em 16 de julho de 2026, vale por 12 meses e custa aos cofres públicos R$ 401.852,46.
O papel é claro. Os brigadistas civis de emergência devem ser credenciados no Corpo de Bombeiros e ter certificado de aptidão técnica em quatro disciplinas: primeiros socorros, reanimação cardiopulmonar, combate a incêndios e salvamento aquático. Ou seja, massagem cardíaca não é favor, é obrigação contratual.
O contrato vai além. Exige que os brigadistas trabalhem uniformizados e com rádio comunicador, justamente para garantir “pronta resposta” nos eventos. Obriga a empresa a manter um preposto no local, para coordenar a equipe e responder à fiscalização do município. Determina a substituição imediata de qualquer funcionário que descumpra as exigências. E impõe que qualquer ocorrência anormal ou acidente seja comunicada formalmente à fiscalização em até 24 horas. A empresa também assume responsabilidade integral e exclusiva pela execução do serviço.
A conta não fecha
Se os relatos dos professores se confirmarem, a conta não fecha. Onde estava a pronta resposta? Onde estava o preposto? Os brigadistas escalados para a Casa Cultural tinham, de fato, a certificação exigida? A empresa já comunicou a ocorrência à fiscalização, como manda o contrato? E o fiscal do contrato, servidor do município, vai agir?
Brigadista não é enfeite de evento. A razão de existir dessa função é agir nos primeiros minutos de uma emergência, antes que o socorro oficial chegue. Numa parada cardíaca, cada minuto sem compressão reduz as chances de sobrevivência. Não há margem para hesitação.
É como contratar uma empresa de segurança para uma festa e ver os seguranças sumirem na primeira briga. A presença deles dá a sensação de proteção. Na hora em que ela é necessária, não existe. Com um detalhe: aqui, quem paga a conta de mais de R$ 400 mil é o contribuinte.
O que diz a Prefeitura?
Outra pergunta que a Prefeitura deve responder: havia desfibrilador no local? Um evento que reúne centenas de profissionais, organizado pelo próprio poder público, deveria ter.
Os professores ouvidos também relataram certa indignação com a organização, que teria tentado manter a programação mesmo depois do ocorrido. A maioria dos presentes entendeu que não havia clima, e as atividades foram encerradas por ali.
Procurado pelo blog, o secretário de Educação, João Carlos Klein, não comentou as queixas. Limitou-se a encaminhar a nota oficial do município. É pouco. A nota cumpre o papel do pesar, mas não responde ao que os colegas de Rafael viram com os próprios olhos.
Nada traz Rafael de volta, e não se trata aqui de afirmar que outro desfecho era garantido. Trata-se de saber se tudo o que podia ser feito foi feito, e se o que foi pago foi entregue. A administração do prefeito Adriano Backes deve à categoria, e principalmente à família, uma apuração séria: ouvir quem estava no salão, checar a equipe escalada, cobrar a empresa nos termos do contrato e tornar público o resultado.
Os professores foram ao Parque de Exposições para serem homenageados. Saíram de lá carregando um colega. O mínimo que merecem agora é a verdade.
Rafael Hoppe nasceu em 5 de janeiro de 1984. O blog se solidariza com familiares, amigos, alunos e colegas.

One Reply to “A festa tinha brigadista. O socorro veio de um professor”