Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo na quarta-feira (14), dez partidos do chamado Centrão fecharam um acordo para tentar votar uma reforma eleitoral já na primeira semana de novembro. O objetivo é alterar as regras de eleição de deputados federais, estaduais e, dependendo da proposta aprovada, também de vereadores.

A movimentação tem uma motivação política bastante clara. O propósito é diminuir a influência dos puxadores de votos e preservar a força dos partidos de centro no Congresso.

Candidatos como Nikolas Ferreira( PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) receberam votações expressivas, com mais de 3 milhões de votos cada um, e contribuíram para ampliar as bancadas de suas legendas. Nikolas puxou outros 13 deputados em Minas e Pavanato arrastou mais sete em São Paulo. Graças a isso o PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara a partir de 2027.

O Paraná teve o seu Nikolas. Jeffrey Chiquini (Novo) fez 425.399 votos, o maior número de toda história no estado. O Novo elegeu quatro federais, e o último deles, Paulo Martins, entrou com 44.029 votos. Ele foi apenas o 46º mais votado do Paraná.

O Centrão quer reduzir esse efeito nas próximas eleições. Para isso, discute duas alternativas: o chamado distritão e o voto distrital misto.

O que está na mesa

O centrão concorda que quer mudar, mas ainda não sabe para quê. A decisão sai de uma reunião marcada para 28 de outubro.

Um detalhe pesa contra a pressa: o bloco soma 271 deputados hoje, mas cairá para 252 na próxima legislatura. Por isso a corrida para votar antes de fevereiro.

 

Marechal Cândido Rondon

Com o distritão, Marechal Rondon continuaria exatamente onde está: sem deputado. O eleitor rondonense pulverizou o voto, e nenhum nome local chegou perto da linha de corte.

Juca foi o mais votado da cidade, mas 56% dos votos dele vieram de Marechal. Fora daqui, o nome não tem estrutura. No distritão, a linha de corte para a Assembleia subiria para algo perto de 38 mil votos. Juca ficaria a 27 mil de distância.

Na disputa federal é a mesma história. Dilceu, o mais votado em Marechal, seria o 32º do estado num ranking puro. Ficaria fora também no distritão.

O distrital misto é outra conversa. Com cerca de 320 mil eleitores por distrito estadual, Marechal e seus 40.475 eleitores representariam algo como 13% de um distrito montado com Toledo, Palotina e vizinhos. É pouco para eleger alguém sozinho. Mas é o suficiente para decidir quem vence.

Traduzindo: Marechal deixaria de ser um colégio que dá votos a candidatos de fora e passaria a ser o fiel da balança dentro do próprio distrito. Quem quiser ganhar ali vai ter de negociar com as lideranças daqui.

O Oeste como ficaria

O Oeste elegeu 3 deputados federais e 7 estaduais em 2026, todos de Cascavel ou Foz do Iguaçu. No distritão, esse número não mudaria.

No Paraná inteiro, o distritão trocaria quatro federais. Sairiam Newton Bonin, Delegado Francischini, Ricardo Arruda e Paulo Martins. Entrariam Luisa Canziani, Roberto Requião, Luiz Nishimori e Marcelo Rangel. Resultado: PL perde dois, Novo e Republicanos perdem um cada; PSD ganha dois. Nenhum desses nomes é do Oeste.

Na Assembleia, seis cadeiras mudariam de mãos, com o PT como o mais atingido. Natan Sperafico, de Toledo, ficaria a cerca de 700 votos do corte. De novo, fora.

O distrital misto é diferente porque redesenha o território. O Paraná tem 8,6 milhões de eleitores. Com 15 distritos federais, cada um teria uns 574 mil. Só Cascavel, Foz, Toledo, Marechal e Medianeira já somam mais de 630 mil. O Oeste provavelmente teria dois distritos federais: um no eixo Cascavel–Toledo–Marechal e outro em Foz e na região lindeira.

Aqui mora o detalhe que o centrão parece não ter calculado. O Oeste vota em massa na direita: Flávio Bolsonaro teve 73,59% em Marechal; Moro, 65%. Num distrito majoritário, onde só um vence, esse eleitor tende a escolher o candidato do PL. A reforma pensada para conter o bolsonarismo pode, aqui, entregar os distritos a ele.

Cascavel e Foz perdem, Toledo ganha

No distrital misto, quem hoje concentra deputados perde e quem tem voto concentrado sem eleger ganha.

Cascavel é a grande perdedora potencial. Com 239 mil eleitores, a cidade seria quase um distrito estadual sozinha, e lá só um vence. Gugu Bueno, Professor Lemos, Fão do Bolsonaro e Batatinha disputariam a mesma vaga. Fão fez 35.707 votos só em Cascavel, 20% dos válidos, e largaria na frente. Os outros dependeriam da lista do partido. Hoje são quatro estaduais; no distrito, um.

Foz do Iguaçu vive o mesmo dilema em escala menor. Paulo Mac Donald, Matheus Vermelho e Yasmin Hachem dividiriam um distrito. Mac Donald já fala em disputar a prefeitura em 2028, o que pode abrir caminho para os outros dois.

Toledo é o caso mais curioso. A cidade deu cerca de 70% dos votos para candidatos locais e mesmo assim não elegeu ninguém pela terceira eleição seguida para a Assembleia. Beto Lunitti fez 29.325 votos em Toledo e ficou em 4º no MDB. Dilceu Sperafico teve 20.676 votos na cidade. No distritão, Toledo continua sem nada. No distrital misto, Lunitti seria favorito num distrito com Marechal, e Dilceu ficaria competitivo no distrito federal.

Medianeira, com 37.479 eleitores, ficaria no distrito de Foz como coadjuvante. Ricardo Endrigo fez 5.201 votos para estadual na cidade, e Neguinho Grassi teve 4.754 para federal. Em nenhum dos dois modelos a cidade elegeria um nome próprio.

A conta chega primeiro às Câmaras

Se aprovada em novembro, a nova regra já valeria para a eleição municipal de 2028. A Constituição exige só um ano de antecedência.

Em 2028, o projeto do distrital misto também muda a eleição de vereadores. As versões em discussão variam no corte: há textos para municípios a partir de 50 mil e outros a partir de 20 mil habitantes. Cascavel, Foz e Toledo entram em qualquer cenário. Marechal e Medianeira estão perto da linha, e o texto final vai decidir.

 

Em 2030, será o primeiro teste estadual e federal do novo modelo. A briga mais importante não será nas urnas, mas na prancheta: quem desenha os distritos. Juntar ou separar Marechal e Toledo, dividir ou não Cascavel, colocar Medianeira com Foz ou com Cascavel. Cada traço desse mapa elege ou derruba alguém.

Ganham os políticos com base territorial forte, como Gugu, Batatinha, Paranhos e Lunitti. Perdem os candidatos de opinião, que hoje colhem votos no estado inteiro, como Chiquini e Kilter. Esses passam a depender da lista do partido.

Uma reforma feita para salvar mandatos

O problema que o centrão aponta é real. Um deputado eleito com 44 mil votos enquanto outra candidata fica de fora com 80 mil é difícil de explicar a qualquer eleitor. Mas a motivação declarada é proteger bancadas, e não aproximar o eleitor do eleito. Reforma feita às pressas, por quem acabou de perder cadeiras, para valer antes da posse de quem ganhou, tem nome: casuísmo.

Para Marechal Cândido Rondon e o Oeste, a conclusão é clara. O distritão não resolve nada. A região seguiria com os mesmos nomes e com Toledo, Marechal e Medianeira sem voz própria. O distrital misto, ao contrário, poderia corrigir uma distorção antiga: municípios com voto concentrado que nunca conseguem transformá-lo em mandato. Mas isso só vale se os distritos forem desenhados com critério técnico, e não sob medida para quem já está lá.

As lideranças de Marechal, Toledo e Medianeira deveriam acompanhar esse debate de perto. Se a reforma passar, a discussão sobre o mapa dos distritos vai definir quem manda no Oeste pelos próximos 20 anos.

Observação importante: Os cálculos usam os votos de 2026. Com outra regra, eleitores e partidos se comportariam de outro jeito. As projeções do distrital misto são estimativas, porque o mapa dos distritos ainda não existe.

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