O blog volta ao caso da morte do professor Rafael Hoppe, ocorrida na noite de quinta-feira (15), durante a confraternização do Dia do Professor na Casa Cultural, no Parque de Exposições. Depois da primeira publicação, organizadores do evento procuraram o blog para apresentar a versão deles sobre o que aconteceu. Ouvir todos os lados é obrigação, e a versão está registrada aqui.
Segundo os organizadores, a Secretaria Municipal de Educação tomou as medidas de praxe e requisitou brigadistas e seguranças para o evento. Eles afirmam que os brigadistas auxiliaram nos primeiros socorros. O professor que tomou a iniciativa da massagem cardíaca, dizem, agiu de forma voluntária porque é bombeiro civil profissional e tem habilitação para esse tipo de atendimento, além do mais estaria numa mesa vizinha a da vítima. Uma professora com formação em enfermagem também ajudou.
Ainda de acordo com a organização, os professores da rede passam por treinamentos frequentes de primeiros socorros, exigência para o ambiente escolar. O SAMU foi acionado de imediato, mas estava em atendimento em Pato Bragado. O Corpo de Bombeiros foi chamado em seguida e chegou rápido ao local.
No hospital, segundo os organizadores, a equipe relatou que Rafael sofreu um infarto fulminante e que dificilmente qualquer socorro teria salvado sua vida. Eles também informaram que o professor tinha histórico de problemas cardíacos.
Sobre a continuidade da festa, a organização afirma que consultou os professores, já que a confraternização era deles e não da Secretaria, e que a decisão de encerrar foi unânime. Antes disso, foi feita uma oração pela recuperação de Rafael. Muitos professores ainda ficaram para ajudar a arrumar o espaço. A Secretaria de Educação, segundo a organização, presta assistência à família. E todos fazem questão de lembrar que Rafael era um excelente professor, querido por colegas e alunos.
O que o blog não disse
É preciso deixar claro um ponto. Parte dos leitores entendeu a primeira matéria como uma acusação à Prefeitura pela morte do professor. Não foi essa a intenção, e não é essa a crítica. Ninguém aqui afirmou que Rafael estaria vivo se o atendimento tivesse sido outro, que estava errado o atendimento prestado pelo colega professor. Diante de um infarto fulminante, a medicina tem limites, e a equipe do hospital foi clara sobre isso.
A crítica é bem outra, e continua de pé: a contratação de empresas para prestar serviço de emergência e a fiscalização da capacidade técnica de quem é colocado em campo.
Os professores que procuraram o blog na noite da tragédia e no início desta manhã foram enfáticos. Segundo eles, os brigadistas pareciam não saber como proceder. E o fato de a reanimação ter sido conduzida por um professor, que por acaso é bombeiro civil, e por uma professora com formação em enfermagem, não tranquiliza ninguém. Pelo contrário. Mostra que o socorro dependeu da sorte de ter as pessoas certas na plateia.
Na próxima festa, na próxima formatura, no próximo evento público, talvez não haja um bombeiro civil entre os convidados. É para isso que o município contrata e paga brigadistas.
Duas empresas, dois contratos
O blog consultou o Diário Oficial. O município tem duas empresas contratadas em julho deste ano para serviços de emergência em eventos. O blog não conseguiu confirmar qual delas atuou na Casa Cultural. Mas, pela lógica teria que ser a empresa de contrato maior, que foi contratada pela administração direta para atender a todas as secretarias.
A primeira, sediada em Londrina, foi contratada pela Fundação Promotora de Eventos (Proem) por R$ 149.999,70, em contrato assinado em 6 de julho de 2026, com vigência de 12 meses. Atende a Expo Rondon e os demais eventos da fundação, com postos médicos, ambulâncias de suporte básico e avançado e equipes formadas por condutores socorristas, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos.
A segunda, sediada em Santa Tereza do Oeste, foi contratada pela administração direta por meio do Contrato Administrativo nº 394/2026, no valor de R$ 401.852,46, assinado em 16 de julho de 2026, também por 12 meses. É ela que fornece brigadistas civis e guarda-vidas para os eventos das secretarias municipais. O contrato prevê combate a princípio de incêndio, apoio operacional e prestação imediata de primeiros socorros e reanimação cardiopulmonar. Exige brigadistas credenciados no Corpo de Bombeiros, com certificado em primeiros socorros, RCP, combate a incêndio e salvamento aquático, além de preposto no local, rádio comunicador e comunicação de qualquer ocorrência à fiscalização em até 24 horas.
Pelo perfil dos contratos, um evento organizado por uma secretaria municipal se encaixa no segundo. Mas essa confirmação cabe à Prefeitura.
O que dizem os CNPJs
O blog levantou o cadastro das duas empresas na Receita Federal. E a diferença entre elas chama atenção.
A empresa de Londrina existe desde 2013. A atividade principal registrada é infraestrutura de apoio e assistência a paciente em domicílio. Entre as atividades secundárias estão UTI móvel, remoção de pacientes e atividades de enfermagem. Há coerência entre o que a empresa declara fazer e o que a Proem contratou.
A empresa de Santa Tereza do Oeste é outra história. Foi aberta em julho de 2023, está enquadrada como microempresa e com endereço registrado na Receita Federal como apartamento. A atividade principal declarada é “outras atividades de recreação e lazer”. Nas secundárias, a lista inclui pintura de edifícios, estacionamento de veículos, investigação particular, limpeza de prédios, paisagismo, organização de feiras e festas, produção de espetáculos de dança e de espetáculos circenses e de marionetes. Nenhuma das atividades registradas menciona brigada de incêndio, primeiros socorros, salvamento ou atendimento de emergência.
Ressalva necessária: o CNAE não prova, sozinho, que uma empresa é incapaz de prestar um serviço. Há códigos genéricos, como o de “outras atividades de serviços prestados às empresas”, que aparecem no cadastro e costumam abrigar atividades diversas. Não há aqui acusação de ilegalidade.
Mas a pergunta é inevitável. Uma microempresa de recreação, com cadastro que vai da pintura predial às marionetes, ganhou um contrato de mais de R$ 400 mil para cuidar da vida das pessoas em eventos públicos.
Como ela comprovou qualificação técnica na licitação? Quem conferiu os certificados dos brigadistas? O fiscal do contrato verifica, evento a evento, se os profissionais escalados são os credenciados que o contrato exige? A empresa já comunicou a ocorrência da noite de quinta-feira, como manda a cláusula das 24 horas?
O próprio contrato obriga a empresa a manter, durante toda a vigência, as condições de habilitação e qualificação técnica exigidas no certame. Cabe ao município conferir se isso está sendo cumprido.
Rafael não volta. A família merece respeito, e os colegas que tentaram salvá-lo merecem reconhecimento. Mas a comunidade merece algo mais: a certeza de que, quando o município paga por socorro, o socorro está lá e sabe o que fazer.

