O lançamento da pré-candidatura de João Eduardo dos Santos, o Juca, a deputado estadual, na noite desta quinta-feira (25), na sede da Associação da Polícia Militar, não pode ser lido apenas como mais um ato político de largada.

O evento teve discurso, apoiadores, autoridades locais e regionais e aquela liturgia própria de quem começa a pedir passagem. Mas o que mais interessa está fora do palco.

Juca não está entrando numa disputa vazia. Pelo contrário. A corrida pelos votos de Marechal Cândido Rondon para a Assembleia Legislativa promete ser a mais emboladas de todos os tempos.

E é justamente aí que o discurso dele no evento ganha outro peso.

Quem apareceu no lançamento

A lista de presenças também ajuda a entender o tamanho e o desenho político do ato. O lançamento reuniu lideranças locais e regionais, com nomes de diferentes trajetórias dentro do campo político que hoje cerca Juca.

Estiveram no evento o ex-prefeito Aríston Limberger, o ex-vereador Arion Nasihgil e seu pai, o advogado Dr. Oscar Nasihgil. Também marcaram presença o deputado federal Felipe Francischini, o vereador de Medianeira Eduardo Schulz, o vereador Policial Fábio, de Marechal Cândido Rondon, o prefeito de Nova Santa Rosa, Lari Hitz, além dos vereadores Abacaxi e Amauri Ladwig, e suplentes de vereador de vários municípios.

A presença do deputado federal Felipe Francischini ajudou a dar ao evento um ar de viabilidade. Ele apresentou uma leitura partidária segundo a qual a chapa do Podemos pode abrir espaço para nomes novos e permitir uma eleição com votação menor do que em siglas mais carregadas de deputados de mandato.

A menção a essas e outras lideranças durante o evento mostra que Juca tenta mostrar que não está sozinho e que sua candidatura pretende se apoiar numa rede de juventude, vereadores, suplentes, lideranças partidárias e apoiadores espalhados pela região.

É óbvio que isso não resolve a eleição, mas dá uma pista do caminho escolhido. Juca sabe que, para transformar o discurso de representação regional em voto, precisará de mais do que boa fala. Vai precisar de gente pedindo voto e abrindo portas.

Dois nomes da casa

Até agora, Marechal tem dois nomes locais colocados como pré-candidatos a deputado estadual: Juca, pelo Podemos, e Tania Maion, pelo Republicanos.

Os dois ocupam espaços diferentes no mesmo campo ideológico.

Tania tem um viés mais identificado com uma direita de tom mais duro e mais radicalizado. É um perfil que conversa com uma parte do eleitorado conservador que prefere o confronto direto, a fala mais pesada e a política feita sem muitos cuidados de moderação.

Juca, por sua vez, parece tentar outro caminho dentro do mesmo campo.

No discurso de lançamento, fez questão de dizer que é de direita, mas não de uma direita de palanque ou de torcida organizada. Tentou se apresentar como alguém mais ligado à economia, à liberdade, à gestão pública e à representação regional.

Não foi uma frase solta. Foi posicionamento.

Num ambiente em que a direita rondonense terá mais de uma opção, Juca tentou demarcar uma faixa própria: conservador, mas sem gritaria; crítico da velha política, mas sem se vender como aventureiro; jovem, mas querendo parecer preparado.

A cidade como bandeira

A principal tese de Juca é simples: Marechal Cândido Rondon precisa voltar a ter deputado estadual. A cidade já teve Werner Wanderer, Gernote Kirinus, Elio Rusch e Ademir Bier ocupando cadeiras no legislativo estadual.

Essa ideia tem apelo. A cidade já teve representantes mas perdeu esse protagonismo direto. O discurso mexe com um sentimento local conhecido: o de que Marechal tem força econômica, política e regional, mas nem sempre aparece com o mesmo peso nas decisões em Curitiba.

O problema é que essa bandeira não será exclusiva dele.

Tania também poderá reivindicar o voto da casa. E os nomes de fora certamente vão dizer que representam Marechal Rondon por meio dos apoios locais que conseguiram reunir.

Ou seja, a eleição não será apenas sobre quem nasceu, mora ou tem mandato na cidade. Será também sobre quem conseguirá convencer o eleitor rondonense de que pode entregar resultado.

Os votos de fora para dentro

Além dos dois nomes locais, há pelo menos quatro pré-candidaturas de fora mirando espaço no município.

Hussein Bakri, deputado estadual do PSD de União da Vitória, deve ter o apoio do grupo do prefeito Adriano Backes e de vários vereadores. Isso o coloca dentro da estrutura mais próxima do governo municipal.

Natan Sperafico, do PP de Toledo, filho do deputado federal Dilceu Sperafico, também deve contar com o apoio de vereadores e lideranças. Traz o peso do sobrenome, a presença regional do grupo Sperafico e a ligação com setores políticos tradicionais do Oeste.

Gugu Bueno, deputado estadual do PSD de Cascavel, aparece com o apoio do grupo do ex-prefeito Marcio Rauber. É outro nome com mandato, estrutura e presença regional.

Na esquerda, Nelsi Welter, do PT de Toledo, surge como a aposta para tentar organizar o voto progressista.

Esse conjunto muda completamente o cenário.

Juca não terá apenas de provar que Marechal Cândido Rondon precisa de um deputado da terra. Terá de disputar essa tese contra candidatos com mandato, estrutura, grupos locais fortes e apoios já encaminhados.

A direita em vários pedaços

O ponto mais delicado para Juca está na fragmentação do eleitorado de direita.

Entre os nomes citados, Tania Maion, Hussein Bakri, Natan Sperafico e Gugu Bueno devem disputar, cada um a seu modo, fatias do eleitorado conservador, governista, municipalista ou ligado a grupos tradicionais.

É nesse ambiente que a fala de Juca sobre não ser da “direita de torcida organizada” ganha leitura política.

Ele parece saber que não basta dizer que é de direita. Isso os outros também dirão. A diferença terá de estar no tipo de direita que pretende representar.

Tania pode ocupar o espaço mais radicalizado. Bakri deve vir com a força do governo e da base do prefeito. Natan entra com o peso do PP e do sobrenome Sperafico. Gugu chega com mandato e o apoio do grupo ligado a Marcio Rauber.

Sobra para Juca tentar vender algo diferente: juventude, discurso técnico, presença local e a ideia de que Marechal Cândido Rondon não pode apenas emprestar votos para projetos de fora.

É um caminho possível, mas estreito.

O teste da coerência

O discurso de Juca também mirou a velha política. Ele disse que não vem de família de políticos, nem carregado por padrinhos. Falou em política de gente, em juventude, em indignação e em não querer ser político de estimação.

É uma boa construção para quem pretende se diferenciar.

Mas a campanha real costuma testar esse tipo de discurso. Para ser competitivo, Juca também precisará de alianças, estrutura, apoios, cabos eleitorais e acordos nos municípios. A linha entre criticar a velha política e depender das engrenagens tradicionais é fina.

Esse será um dos pontos a observar.

Até onde Juca conseguirá manter o discurso de renovação sem ser engolido pela lógica normal de uma campanha estadual?

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