Se tem uma coisa que a vereadora Tânia Aparecida Maion (Republicanos) não faz questão de cultivar na política de Marechal Cândido Rondon é a boa convivência com seus colegas ou adversários (o enquadramento muda conforme a conveniência).
Na Câmara, os embates com tais colegas são frequentes. Com a administração municipal (a mesma que ela ajudou eleger), as críticas são quase uma rotina. E, quando o assunto é política nacional, o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF) estão entre seus alvos preferidos.
Aliás, nos últimos dias, Tânia protagonizou discussões acaloradas com os vereadores Gordinho do Suco e Marciane Specht, trocou acusações, cobrou explicações e manteve o estilo combativo que se tornou sua marca registrada. Afinal, a parlamentar não costuma levar desaforo para casa. Tampouco economiza nos que distribui.
Mas agora a polêmica atravessou as fronteiras de Marechal Cândido Rondon. Era um assunto já aguardado e é bem mais sério do que os tradicionais bate-bocas do Legislativo.
Tânia Maion foi denunciada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por cinco crimes relacionados ao polêmico 8 de janeiro, entre eles golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
A denúncia foi apresentada semana passada, em 8 de outubro, exatamente no dia em que a vereadora voltou à tribuna da Câmara para defender Jair Bolsonaro e pedir votos para seu filho, Flávio Bolsonaro.
No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes, justamente um dos principais alvos das críticas do bolsonarismo, determinou que Tânia fosse notificada para apresentar resposta prévia à denúncia no prazo de 15 dias.
A vereadora que costuma exigir respostas dos outros agora terá de apresentar as suas ao Supremo. Com uma diferença fundamental: desta vez, não se trata de um confronto político entre colegas, mas de acusações criminais que serão examinadas pelo STF, respeitados o direito de defesa e a presunção de inocência.
Mas todos sabem como tem sido pesada a mão do Xandão nestes casos.
A denúncia no Supremo
O caso tramita no STF sob o número PET 11.675 e teve origem em uma investigação encaminhada pela 1ª Vara Federal de Guaíra, envolvendo suspeitas de participação em atos antidemocráticos do 8 de janeiro de 2023.
Além de Tânia Maion, a PGR denunciou Vilmar Marcos Rutke, ex-servidor público de Nova Santa Rosa.
Segundo o despacho assinado por Alexandre de Moraes, a denúncia apresentada em 8 de outubro atribui aos dois investigados os crimes de associação criminosa, dano qualificado ao patrimônio público, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e deterioração de patrimônio tombado.
As acusações são graves, mas há uma distinção jurídica fundamental: o despacho determina a apresentação de defesa prévia. É importante observar que isso não significa, por si só, que o STF tenha recebido a denúncia ou reconhecido a culpa dos envolvidos.
O documento também não detalha as condutas individuais que a PGR atribui à vereadora. Para conhecer esses elementos, é necessário analisar a íntegra da denúncia.
O STF que Tânia tanto critica
Há uma ironia política difícil de ignorar nessa história.
Tânia Maion é uma das vozes mais identificadas com o bolsonarismo na Câmara rondonense. Em seus discursos, não costuma economizar críticas ao governo Lula, às decisões judiciais que considera abusivas e à atuação do Supremo Tribunal Federal.
Em maio deste ano, ao defender a eleição de senadores conservadores, declarou que “o Senado é o freio do STF”.
Em junho, criticou o que chamou de “ativismo judicial”. Já na sessão de 5 de outubro, destacou a importância da eleição presidencial porque, segundo sua avaliação, o próximo presidente poderia indicar pelo menos quatro ministros para a Suprema Corte, contribuindo para a formação de um Judiciário que considera mais íntegro.
Três dias depois, voltou à carga em defesa de Bolsonaro: “Votei no pai e votarei no filho”.
Agora, a parlamentar terá de exercer seu direito de defesa justamente perante a Corte cuja atuação costuma questionar.
Isso não diminui sua liberdade de criticar o Judiciário nem antecipa qualquer conclusão sobre a denúncia. Mas coloca seu discurso político diante de uma situação concreta, que certamente terá repercussões no debate local.
Das discussões na Câmara aos tribunais
Quem acompanha as sessões da Câmara de Marechal Cândido Rondon sabe que Tânia Maion raramente passa despercebida.
Eleita em 2024, a vereadora construiu um perfil combativo, com críticas frequentes à administração do prefeito Adriano Backes, especialmente na área da saúde. Questiona filas de consultas e cirurgias, cobra informações sobre o Ciscopar e contesta os recursos destinados a festas e grandes eventos.
A postura também produz atritos com colegas vereadores.
Um dos episódios mais recentes ocorreu em 28 de setembro, quando Tânia protagonizou uma discussão com Gordinho do Suco e Marciane Specht. Na ocasião, criticou a atuação de Marciane na área da saúde e ironizou uma proposta de Gordinho.
A resposta veio no mesmo tom.
“A vereadora Tânia ataca como vereadora e se defende como mulher”, disparou Gordinho, antes de prever que as urnas dariam uma resposta à colega.
Tânia reagiu afirmando que os vereadores deveriam procurar respostas para a população, em vez de atacá-la.
As trocas de acusações ilustram o ambiente de tensão que acompanha parte de sua atuação parlamentar. Não é raro que debates sobre assuntos administrativos acabem ganhando contornos de enfrentamento pessoal.
Uma votação expressiva, mas insuficiente
Nas eleições de 4 de outubro, Tânia disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa pelo Republicanos.
Recebeu 3.326 votos em Marechal Cândido Rondon, ficando como a terceira candidata a deputada estadual mais votada no município, bem atrás do colega vereador Juca e de Hussein Bakri.
No Paraná, somou 6.958 votos, resultado bem longe de ser suficiente para conquistar uma cadeira.
A votação mostrou que a vereadora mantém uma base eleitoral importante em Marechal Rondon, embora sua candidatura não tenha alcançado a projeção estadual necessária para se eleger, apesar dos seus milhares de seguidores nas redes sociais.
A denúncia da PGR surge, portanto, poucos dias depois de sua participação na disputa eleitoral, acrescentando uma questão judicial de grande repercussão ao cenário político da parlamentar.
Outra investigação envolvendo o 8 de janeiro
O nome de Tânia também aparece em outro procedimento no Supremo, a Petição 13.870, que trata de investigações sobre o financiamento e a contratação de ônibus utilizados para levar manifestantes a Brasília no contexto dos atos de 8 de janeiro de 2023.
Em despacho de 29 de setembro de 2026, Alexandre de Moraes menciona uma determinação anterior para que a vereadora prestasse esclarecimentos sobre a contratação de um dos ônibus investigados.
A menção integra uma investigação distinta e não comprova que Tânia tenha financiado a viagem ou participado de algum crime.
O peso político da denúncia
É cedo para avaliar quais serão as consequências jurídicas da denúncia ou seus possíveis reflexos sobre o mandato da vereadora.
O que já se pode afirmar é que Tânia Maion passa a enfrentar uma situação diferente das polêmicas que costuma protagonizar no plenário rondonense.
Discussões entre vereadores fazem parte da atividade política, mesmo quando ultrapassam os limites da cordialidade. Uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República por crimes contra o Estado Democrático de Direito pertence a outra dimensão.
Agora, a parlamentar que costuma cobrar explicações de adversários políticos terá pela frente a necessidade de responder às acusações formuladas pela PGR.
E, desta vez, não será numa discussão de plenário.

Interessante os embates entre vereadores. Em tese a maioria de direita e extrema direita. Na história do 8 de janeiro, não deve (ou não deveria) ser a única.