Quem montou a lista de boicote que circula nos grupos de WhatsApp de Marechal Cândido Rondon queria atingir os negócios de comerciantes, empresários e profissionais liberais apontados como petistas ou simpatizantes da esquerda. Pelo menos um setor da economia local, porém, já tem motivos para agradecer: a advocacia.
Na segunda-feira (26), o blog mostrou que a relação poderia render uma coleção de processos. De lá para cá, o blog apurou que pessoas incluídas na lista já procuraram advogados para estudar ações de indenização por danos morais. Na prática, cada nome na lista virou um potencial cliente. E mesmo com o alerta teve gente insistindo em compartilhar a maldita lista em alguns grupos.
Trabalho nas duas pontas
E a boa fase da categoria não para por aí. Se de um lado há quem vá entrar com ações, do outro há quem vai precisar se defender. Autores da lista, quem ajudou a acrescentar nomes, quem repassou a mensagem e até administradores de grupos que deixaram o material circular sem moderação podem acabar sentados diante de um advogado, discutindo honorários.
A lista que nasceu para dividir a cidade entre “nós” e “eles” conseguiu agradar a uma categoria inteira. Os advogados de Marechal Cândido Rondon, de qualquer corrente política, ganham serviço tanto na petição inicial quanto na contestação.
Some-se a isso notificações extrajudiciais, atas notariais para registrar prints de WhatsApp e audiências de conciliação. É o tipo de cadeia produtiva que nenhum boicote consegue interromper.
Ijuí mostra o caminho (e o preço)
Para quem acha tudo isso exagero, vale olhar para Ijuí, no Noroeste gaúcho. Lá, o vereador Almiro Correa Fortes Filho (PL) publicou vídeos incentivando empresários a demitir trabalhadores identificados com a esquerda, lançou uma campanha chamada “Liberte um esquerdista” e ainda prometeu uma lista de trabalhadores de direita para ocupar as vagas.
O Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS) ajuizou ação civil pública na quarta-feira (28) e obteve liminar na Justiça do Trabalho. O vereador teve seis horas, a partir da intimação, para apagar as publicações e divulgar uma retratação nas mesmas redes sociais, sob pena de multa. No texto que foi obrigado a publicar, ele reconhece que todo trabalhador pode escolher livremente seus candidatos e que empregadores estão proibidos de retaliar essa escolha, inclusive com ameaça ou perda do emprego.
E a conta ainda não fechou: o MPT pede a condenação do vereador ao pagamento de R$ 300 mil por danos morais coletivos.
O caso de Ijuí envolve demissões e corre na Justiça do Trabalho. O de Marechal envolve boicote a comerciantes e profissionais, terreno da Justiça comum. A lógica, porém, é parecida: transformar preferência política em motivo para prejudicar alguém custa caro. E a primeira parcela desse custo costuma ir direto para o escritório de advocacia.
Torcida organizada
Por isso, se existe alguém em Marechal Cândido Rondon torcendo por novas listas, dificilmente estará entre comerciantes ou políticos. O lugar mais provável são os escritórios de advocacia.
Para quem ainda pensa em encaminhar aquela mensagem com nomes e “recomendações” de onde não comprar, fica a sugestão: antes de apertar o botão de reencaminhar, vale salvar na agenda o contato de um bom advogado. Pode ser útil.
