Passado o segundo turno das eleições presidenciais, uma velha prática voltou a circular pelos grupos de WhatsApp de Marechal Cândido Rondon: listas com nomes de comerciantes, empresários e profissionais liberais classificados como petistas ou simpatizantes da esquerda, acompanhadas de apelos ao boicote.
O que os responsáveis talvez não tenham considerado é que essa iniciativa pode ter consequências bem mais sérias do que algumas discussões em grupos de mensagens.
Pessoas incluídas na relação já estão buscando orientação para defender seus direitos. E, dependendo das provas reunidas, os autores da lista e também aqueles que participaram de sua divulgação e, inclusive, administradores de grupos, que não moderaram as postagens, poderão ser chamados a dar explicações à Justiça.
A origem pode não ser tão misteriosa
Detalhe: há informações sobre fortes indícios de onde teria partido a lista que circula em Marechal Cândido Rondon. E também de outros que ajudaram a incrementá-la, adicionando mais nomes.
É bom lembrar que WhatsApp não é terra sem lei. Mensagens, capturas de tela, registros de encaminhamento e outros elementos podem servir de prova em procedimentos judiciais.
E não adianta simplesmente apagar a mensagem depois. Se o conteúdo já foi printadoo por outras pessoas, a exclusão não elimina as evidências.

Quem compartilhou também pode responder
A responsabilidade pode não ficar restrita a quem teve a ideia original.
Quem reproduziu a lista, incentivou o boicote ou ampliou deliberadamente a exposição dos nomes também poderá ser acionado judicialmente, dependendo das circunstâncias e dos prejuízos comprovados.
O Código Civil prevê reparação por danos decorrentes de atos ilícitos e abuso de direito. Já a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece proteção especial às informações relacionadas à opinião política de pessoas identificadas.
Em outras palavras, uma coisa é decidir onde gastar o próprio dinheiro. Outra, bastante diferente, é organizar campanhas para constranger e prejudicar pessoas em razão de suas preferências políticas, reais ou presumidas.

Tem advogado na lista. E agora?
Há um detalhe particularmente curioso na relação que circula em Marechal: entre os profissionais apontados como supostos petistas também aparecem pelo menos três advogados.
Justamente profissionais que conhecem os caminhos da Justiça e os instrumentos legais disponíveis para proteger a honra, a imagem e os direitos de quem se considera prejudicado.
Não significa que eles apresentarão ações judiciais. Mas seria uma ironia e tanto se os responsáveis pela lista acabassem tendo que contratar advogados para se defender de processos movidos por advogados incluídos nela.
A história se repete
Em 2022, após o primeiro turno da eleição presidencial, episódios semelhantes ganharam repercussão nacional. Comerciantes chegaram a denunciar perseguições, ameaças e tentativas de prejudicar seus negócios.
Agora, em 2026, a prática surgiu só agora, depois do segundo turno. E não foi só em Marechal Cândido Rondon, Casos pipocaram em várias cidades do País, especialmente nas regiões onde o bolsonarismo é mais evidente.
Nesta segunda-feira (26), a Gazeta Digital publicou reportagem sobre uma mobilização de boicote a empresas consideradas favoráveis a Lula em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso.
Em Marechal Cândido Rondon, porém, o desfecho ainda está por ser escrito.
Quem elaborou a lista talvez imaginasse apenas provocar um desgaste comercial e político nos nomes relacionados.
Mas a lista que nasceu para apontar os outros pode acabar servindo para identificar quem a produziu e quem ajudou a espalhá-la.
E, dessa vez, a conta pode não ficar apenas na discussão política.

Se alguém tiver o contato do Zanin… fiquei sabendo que ele faz milagres com uma caneta. 😊