A matéria que publiquei ontem (26), Lista de boicote em Marechal pode render uma coleção de processos, ultrapassou as fronteiras do município e do país. A relação de comerciantes, empresários e profissionais liberais apontados como petistas, que circulou em grupos de WhatsApp após o segundo turno, provocou reação até de quem deixou Marechal Cândido Rondon há mais de três décadas, mas mantém aqui familiares e amigos.

É o caso do pastor luterano Clóvis Elói Kurtz, hoje ligado à Igreja Luterana Unida na Argentina e no Uruguai. Em carta aberta encaminhada ao blog, ele recorre à própria trajetória na cidade para contrastar a convivência entre adversários daquela época com a intolerância de agora.

Em 1988, foi cabo eleitoral de uma candidata do PDS. No ano seguinte, ocupou cargo comissionado na Prefeitura enquanto fazia campanha para Lula.

Leia a íntegra:

CARTA ABERTA
Quando adversários dividiam o almoço

Por Clóvis Elói Kurtz*

Teve um filósofo judeu, Martin Buber, que falava do Eu e Tu. O Eu era refletido no Tu. Basicamente, para explicar com palavras simples: a minha humanidade somente pode ser reconhecida como humanidade quando a vejo refletida no outro. É no/a outro/a que eu encontro esta humanidade, e quem permite que eu a veja é Deus, que é nosso “espelho”.

Ver, nestes dias pós-eleições, em diversos municípios do Sul do Brasil, a publicação de listas de pessoas e empresas petistas é algo preocupante e totalmente fora de qualquer padrão democrático.

Em 1988, eu fui contratado por uma candidata a vereadora em Marechal Cândido Rondon como cabo eleitoral. Estava desempregado naquele momento e aceitei. O partido da candidata era o, então, PDS. Fiz o meu trabalho com bastante eficiência, tanto que, no ano de 1989, fui contratado com cargo comissionado na Prefeitura. O prefeito, então, era Dieter Seyboth. No momento em que tivemos a eleição presidencial, tanto no primeiro turno como no segundo, eu saía do trabalho, marcava o ponto, colocava o boné e a camiseta da campanha do Lula e saía panfletando. Teve até um dia em que o prefeito veio até o lugar do cartão-ponto e deu uma risada, dizendo: “É, pode ser eleito agora e, se não for eleito agora, no futuro será”, ao que eu respondi: “Conto com seu voto”, e continuei minha panfletagem.

Tanto trabalhamos que, em 1989, no segundo turno, o candidato Lula venceu em Marechal Cândido Rondon, mas perdeu na nacional. O convívio com as diferenças era harmônico e sem mais discussões. Na comunidade da minha igreja, em Rondon, em muitas festas estava o falecido Werner Wanderer e também o Ilmar Priesnitz, ambos de forças políticas diferentes, mas que tinham a capacidade de compartilhar um almoço festivo sem problemas.

Em 1990, saí de Marechal e realmente não posso entender as manifestações em redes sociais na atualidade. Pessoas que se encontram aos domingos ou sábados para prestar culto a Deus e não conseguem reconhecer no outro a manifestação de Deus. Tanto é assim que, nestas eleições, teve gente que não saiu às ruas para festejar por medo.

Que país é este?, diria o Cazuza [Renato Russo]. O que aconteceu nestes últimos 36 anos para que isso fosse possível? Pessoas que manifestamente participam de comunidades religiosas dizem e escrevem barbaridades nas redes.

A liberdade de expressão, garantida na Constituição, é considerada sempre e quando a minha expressão não passe os limites da lei. Como cidadão, eu não posso “dizer qualquer coisa”; devo e tenho que respeitar o/a outro/a, independentemente das diferenças de opinião, pensamento, etnia, religião, opção/condição sexual e pensamento político.

Simpatizar com um movimento político e/ou partido tem a ver com a forma como idealmente cada pessoa quer ver o país organizado, sempre e quando todos/as tenham direito a escolher através de um instrumento democrático, que é o voto.

Lamento realmente ver este espetáculo, onde uns querem eliminar os outros, negando assim a humanidade que nos é presenteada por Deus. Que cada um/a possa examinar sua consciência, seu coração e a sua fé e voltar, então, a olhar para o/a outro/a como reflexo da sua humanidade, recebida por obra e graça de Deus.

*Clóvis Elói Kurtz é pastor da Igreja Luterana Unida na Argentina e no Uruguai

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