Marechal Cândido Rondon nunca foi terra fácil para a esquerda. Colonizada por imigrantes alemães, de tradição conservadora, com a antiga Arena e o MDB historicamente ocupando o espaço, o município é, para o PT, mais desafio do que reduto. É exatamente nesse terreno que o partido decidiu plantar bandeira neste sábado (01/08), às 19h30, com a inauguração de uma sede própria no Comitê Municipal, na Avenida Expedicionário Otto Grings, nº 1.500, Parque Ecológico, na região do Lago.
O gesto tem o tamanho da ambição de quem o promove. Em conversa com este articulista, o presidente do diretório municipal do PT, Fernando Nègre, não disfarça a magnitude do que está prometendo: nada menos que tirar os conservadores do trono que ocupam há décadas e colocar o PT no comando da Prefeitura. “Todo o esforço que eu vou produzir agora nos próximos dez anos é para que o PT chegue ao governo de Marechal Cândido Rondon e possa governar de fato, ser eleito com a nossa sigla, com a nossa militância”, afirma, sem meio-termo.
Uma sede que faltava
Fernando lembra que a última vez em que o PT teve sede própria na cidade foi em 2012, num imóvel na Rua Ceará, montado às pressas para aquele ciclo eleitoral. “Depois disso, nunca mais”, resume.
A cobrança que ele mesmo criou
O detalhe mais picante da conversa, porém, não é a meta de dez anos. É o critério que o próprio Fernando escolheu para ser cobrado por ela. Ele diz textualmente que “o nosso trabalho é um trabalho que tem uma avaliação de dois em dois anos”, ou seja, pelo resultado nas urnas. E 2026 é, precisamente, o próximo desses ciclos: ano de eleição para governo do estado, Senado e Assembleia Legislativa.
Ao completar um ano na presidência do diretório justamente às vésperas desse pleito, e ao inaugurar a sede a poucos dias do início do período eleitoral oficial, Fernando amarrou o próprio discurso a um teste que não vai poder adiar. Se o critério é a urna, a urna de outubro é quem vai responder.
Companhia de peso
Para dar corpo ao recado, o PT traz apenas a militância local. Confirmaram presença no evento o deputado federal Elton Welter; os presidentes de diretório Rodrigo Priesnitz (Toledo), Émerson Stevanato (Palotina) e Anderson de Oliveira (Guaíra); o vice-presidente do PT de Foz do Iguaçu, Luiz Henrique Dias; o vereador de Assis Chateaubriand Joaquim Cardoso; e quatro pré-candidaturas a deputado estadual: Valentina Virginio (também vereadora de Foz do Iguaçu), Fernando Duso, Caê Traven e a professora Nelsi Welter.
É uma boa amostra do PT do Oeste do Paraná reunida numa cidade onde o partido historicamente não manda no jogo, o que só reforça a leitura de que a inauguração é tanto uma festa de sede quanto um palanque antecipado para outubro.
O que está em jogo
Fernando Nègre está apostando alto: prometer virar o jogo numa cidade de tradição conservadora, contra um adversário instalado há gerações, e ainda aceitar ser medido pelo resultado já na próxima eleição, sem margem para dizer que “o processo é de longo prazo” quando o boletim de urna sair.
É uma aposta corajosa, e justamente por isso, uma das mais interessantes para acompanhar na política rondonense neste semestre. Se der certo, o PT terá motivo real para comemorar a nova sede. Se não der, a nova sede vai virar símbolo de uma ambição que a própria conjuntura da cidade não deixou vingar.
