O senador Sergio Moro (PL) foi oficializado sábado (01), em convenção realizada em Curitiba, como candidato ao Governo do Paraná. Entre as promessas apresentadas ao eleitorado, uma chamou a atenção deste blogueiro: a construção de um Presídio Estadual de Segurança Máxima do Paraná, destinado a criminosos de alta periculosidade e integrantes de organizações criminosas.
No discurso, publicado no mesmo dia em suas redes sociais, Moro foi direto: “Queremos fazer do Paraná o estado mais seguro do país. Para isso, entre outras medidas, vamos construir o nosso Presídio Estadual de Segurança Máxima”. E completou: “Que tenha medo de vir no Paraná e violar a lei e praticar crimes, porque ele vai saber que o destino final dele pode ser o nosso presídio estadual de segurança máxima”. Veja aí:
Proposta legítima, diga-se. Segurança pública se faz com estrutura, e o déficit de vagas no sistema prisional paranaense é conhecido. O problema não está na promessa. Está na plateia que aplaude.
Os padrinhos rondonenses do candidato
Em Marechal Cândido Rondon, Moro tem entre seus principais apoiadores justamente os nomes que lideraram a cruzada contra a unidade prisional oferecida ao município pelo atual governo do Estado: a vereadora Tania Aparecida Maion, do Republicanos, o ex-prefeito Marcio Rauber, do União Brasil, e o vereador João Eduardo dos Santos (Juca), do Podemos.
A memória é recente. Foi Tania quem protocolou na Câmara, em agosto do ano passado, projeto de iniciativa popular com cerca de 5 mil assinaturas proibindo a prefeitura de doar ou ceder terrenos para presídios. Foi Juca quem classificou o projeto de “cheque em branco” e “bomba-relógio”, alertando que o ônus social cairia no colo do município. E foi Rauber quem vestiu a fantasia de opositor à unidade que a sua própria gestão havia pleiteado em Curitiba, com direito a comitiva chefiada pelo seu vice.
O resultado todos conhecem. No dia 04 de setembro de 2025, a Prefeitura de Marechal Cândido Rondon divulgou nota oficial recusando a cessão de área para a nova unidade prisional. O município abriu mão de um pacote de quase R$ 70 milhões em investimentos estaduais e ficou com o que sempre teve: uma cadeia para 20 presos abrigando quase 100 no centro da cidade, e outros 300 apenados circulando de tornozeleira.
A pergunta que faço agora
Agora, este articulista faz a pergunta que o palanque prefere evitar: e se Moro, eleito governador, decidir construir o seu presídio de segurança máxima em Marechal Cândido Rondon?
Tania, Rauber e Juca vão subir no caminhão de som de novo? Vão coletar outras 5 mil assinaturas, desta vez contra o projeto do candidato que eles próprios ajudaram a eleger? Ou a bomba-relógio de ontem vira chance de ouro amanhã, dependendo apenas do padrinho da obra?
Aqui entra um detalhe que merece lupa. A lei de iniciativa popular capitaneada por Tania, aprovada pela Câmara no dia 20 de outubro de 2025, não proíbe presídio em Marechal para sempre. Proíbe por quatro anos. Pelo texto, o Município fica impedido de adquirir, doar ou ceder área ao Governo do Estado para construção de presídio ou penitenciária estadual apenas até o fim de 2029.
E este articulista pergunta: por que quatro anos? Se o presídio é o perigo que pintaram, a ameaça às famílias, à segurança e ao futuro da cidade, ele deveria ser vetado em caráter permanente. Perigo não tem prazo de validade. Mas o calendário escolhido é intrigante. A proibição cobre exatamente a eleição estadual de 2026 e a eleição municipal de 2028. Blindados os dois pleitos, a porta reabre. A lei não é uma convicção, é uma quarentena eleitoral.
A justificativa oficial dos signatários afirma que quatro anos seriam suficientes para encontrar uma solução alternativa à atual cadeia pública do centro. Pois bem: a conta desse compromisso já está correndo. Passados quase dez meses da aprovação, qual solução alternativa foi apresentada? Nenhuma. A cadeia segue no mesmo lugar, com a mesma superlotação, e o prazo que os próprios autores fixaram vai se consumindo em silêncio.
Há ainda uma coincidência de datas que ninguém comentou. A proibição expira no fim de 2029, em pleno meio do mandato do governador que será eleito agora em outubro. Se esse governador for Moro, a lei de Tania terá servido para barrar o presídio do adversário e liberar, na metade do caminho, o presídio do aliado. Conveniente demais para ser acaso, coincidente demais para ser convicção.
Porque presídio de segurança máxima não se constrói no ar. Ele será erguido em algum dos 399 municípios do Paraná. Terá vizinhos, terá famílias de apenados, terá tudo aquilo que serviu de argumento para incendiar as redes sociais rondonenses em 2025. A diferença é que abrigará justamente os presos mais perigosos do sistema, as lideranças do crime organizado que Moro promete isolar.
Em qualquer outro lugar do Paraná pode, aqui não
Ao apoiar um candidato que promete presídio de segurança máxima, os opositores rondonenses assinam embaixo de uma lógica curiosa: no Paraná, em qualquer outro lugar, pode construir presídio. Só aqui que não.
O presídio é necessário, desde que fique no quintal alheio. A segurança pública é prioridade, desde que a estrutura dela seja erguida a 200, 300 quilômetros de distância. O eleitor de Marechal Cândido Rondon aplaude a promessa em Curitiba e queima o projeto em casa.
Como escreveu Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. A unanimidade que se formou em Marechal contra o presídio, construída à base de pânico e desinformação, agora terá que conviver com o constrangimento de aplaudir em palanque estadual aquilo que apedrejou em praça local.
A conta vai chegar. Ela sempre chega. E quando o presídio de Moro, se ele vier a se eleger, for anunciado para alguma cidade do interior, este blog fará questão de lembrar quem aplaudiu de pé a promessa. Coerência, na política local, segue sendo artigo raríssimo. Mais raro que vaga em presídio.
