Neste sábado (18), o governador Ratinho Junior (PSD) esteve no Oeste. Em Palotina, entregou 1.028 moradias do Residencial Bem Viver e anunciou R$ 40 milhões para a construção do novo Hospital Municipal, ao lado do prefeito Rodrigo Ribeiro. Depois, almoçou no Boteco do Mosquito, em Toledo, com o pré-candidato ao governo Sandro Alex (PSD) e o pré-candidato ao Senado Alexandre Curi (PSD), cercado de prefeitos e deputados da região.
Foi no aeroporto de Toledo que este blogueiro o abordou para uma pergunta que Marechal Cândido Rondon inteira quer fazer: o que ele achou da adesão do ex-prefeito Marcio Rauber (União Brasil) ao palanque de Sergio Moro (PL)?
A resposta veio sem rodeios. Ratinho Junior disse que lamenta a situação, porque gostaria que o ex-prefeito continuasse colaborando com sua equipe. E cravou a frase que resume o incômodo: estranhou ver uma liderança do porte de Rauber apoiar um candidato que “nunca ajudou a Marechal”.
Na sequência, o governador tratou de minimizar. Disse que “faz parte do show”, que seu grupo tem “mais gente boa vindo do que gente saindo” e que o caso envolve disputas partidárias regionais e locais, muitas vezes ligadas a cabos eleitorais de deputados, nas quais prefere não se meter.
Garantiu ainda que a ausência de Rauber não vai afetar o município: o Estado seguirá trabalhando com o prefeito Adriano Backes (Progressistas), e lembrou das muitas obras realizadas pelo seu governo na cidade, destacando o contorno Oeste, entregue na gestão de Marcio.
Elegante, o governador. Mas o que ele chamou de “show” muitas pessoas chamam por outro nome no dicionário: ingratidão.

A conta dos seis anos
Comecemos pelo básico. Durante os seis anos em que a administração de Marcio Rauber coincidiu com o governo Ratinho Junior, Marechal Cândido Rondon foi tratada com generosidade pelo Palácio Iguaçu. Obras, convênios, repasses e, acima de tudo, o Contorno Oeste, a maior intervenção viária da história recente do município, bandeira que o próprio ex-prefeito exibiu em todos os palanques e inaugurações.
Nenhum prefeito entrega obra estadual sozinho. Rauber sabe disso melhor do que ninguém, porque colheu politicamente cada centímetro de asfalto que fez na cidade e muito dele, foi o Estado que autorizou.
Terminado o mandato, a gratidão do governador continuou. Em 23 de abril de 2025, o Decreto nº 9.666 nomeou Marcio Andrei Rauber para o cargo de assessor, símbolo CCE-2, da Casa Civil. Não é um cargo qualquer. É o coração do governo, a sala ao lado do gabinete do governador. Rauber ficou lá até o Decreto nº 13.109, de 30 de março de 2026, que o exonerou com efeito a partir de 31 de março. Foi agora, há apenas pouco mais de 3 meses.
E a história não termina aí. Em 4 de maio de 2026, pouco mais de um mês depois de deixar a Casa Civil, Rauber foi nomeado assessor político, nível G-2, no gabinete do deputado Gugu Bueno (PSD), primeiro secretário da Assembleia Legislativa. Cargo comissionado, 40 horas semanais, salário bruto de R$ 18.038,02. Uma vaga da cota do PSD, o partido do governador.
Traduzindo: na noite em que subiu no palanque de Moro, no Sítio Pedde, Marcio Rauber recebia, e segue recebendo, um salário pago por uma estrutura política do grupo que decidiu combater.
Antístenes dizia que a gratidão é a memória do coração. A de Rauber, pelo visto, tem a memória do contracheque. E olha que o contracheque ainda está em dia. Ele segue no cargo.
A saia justa de Gugu Bueno
O caso cria um constrangimento de primeira grandeza para Gugu Bueno. O deputado é da base do governador, ocupa a primeira secretaria da Alep e abriga em seu gabinete, com dinheiro público, o articulador que promete pedir votos para Sergio Moro a partir de 15 de agosto.
Na prática, Rauber vai usar o capital político acumulado, inclusive nos tempos de Casa Civil, para tentar eleger Gugu na região e desbancar Hussein Bakri (PSD), o deputado do prefeito Backes. É exatamente a disputa de cabos eleitorais que o governador citou no aeroporto, sem citar nomes. Todos entenderam.
Em conversa com esse blogueiro durante a semana, Marcio garantiu que avisou Gugu antecipadamente e que até deixou o cargo à disposição.
Indenpendente disso, imagino que Gugu terá de explicar como sustenta no gabinete um assessor que trabalha contra o projeto estadual do seu próprio partido.
O precedente que preocupoa o governador
Há ainda uma dimensão que vai além de Marechal. Ao dizer que “faz parte do show”, Ratinho Junior tentou desidratar o episódio, mas ele sabe o risco que o caso carrega.
Se um ex-prefeito criado politicamente na sombra do governo, empregado na Casa Civil e depois na Alep, pode pular do barco sem custo, o que impede prefeitos e ex-prefeitos de outras regiões de fazer o mesmo?
Com as pesquisas favorecendo Sergio Moro, cada adesão dessas vira senha para a próxima. O governador minimiza em público. Em particular, ninguém no Palácio Iguaçu achou graça.
No fim, quem sai bem da foto é o município.
Ratinho Junior garantiu que Marechal não pagará a conta da escolha de Marcio Rauber e que a parceria com o prefeito Backes segue de pé.
O Estado, ao menos, separa as coisas. Já o ex-prefeito escolheu o caminho oposto: embolsou seis anos de obras, um ano de Casa Civil e um salário da cota do PSD para, no primeiro palanque cheio, declarar guerra a quem lhe deu tudo isso.
