O parque de exposições de Marechal Cândido Rondon já viu de tudo. Shows, rodeios, festas que cabem no orgulho da cidade sem sobrar espaço. Mas há episódios que não cabem no cartaz oficial, que não ganham nota de imprensa. Esses correm por fora, de boca em boca, com aquela velocidade que só as histórias verdadeiras têm. Mas, quando é pra falar do assunto, todo mundo muda de conversa.
Curioso. Testemunhas não faltam. Coragem de falar, essa sim, escasseou. Diante disso, o jeito é transformar o fato em ficção, sabendo que a ficção, às vezes, é o único lugar onde a verdade cabe inteira.
O lixo e o relho
No parque trabalha um gaúcho há tempo suficiente para conhecer cada canto, cada porteira, cada cheiro de terra molhada depois da chuva. Homem de origem, de costumes firmes e de pouca tolerância para o desleixo alheio. Do tipo que não precisa gritar para ser ouvido.
Todo gaúcho que se preze carrega três coisas consigo: o nome, a palavra e o relho. O nome, porque foi dado pelos pais e não se larga. A palavra, porque foi dada uma vez e não se volta atrás. O relho, porque há situações em que a conversa não resolve, e o couro fala mais alto que a voz.
Ali no parque tinha acontecido uma grande festa. Dinheiro de empresa igualmente grande, serviço de empresa menor, aquela lógica conhecida de quem contrata, repassa e lava as mãos.
A festa foi boa, mas passou. A música calou, o público foi embora. O lixo ficou. Não jogado por descuido, não esquecido por distração. Largado, com aquela indiferença de quem acha que o problema é sempre do próximo.
De manhã, quando o gaúcho chegou e viu, não precisou de muito tempo para decidir o que fazer.
Foi atrás do responsável. Falou o que tinha para falar, com a clareza de quem não enrola.
O outro ouviu com aquela paciência de quem não está ouvindo. Respondeu com o tom de quem ainda acha que manda ali, que conhece as pessoas certas, que um telefonema resolve. Boquejou. Gesticulou. Usou o nome de não sei quem. Fez aquela encenação de quem confunde familiaridade com autoridade, e acha que anos de trânsito num lugar valem mais do que o respeito básico que qualquer espaço merece.
O gaúcho deixou terminar. Não interrompeu. Esperou o fim do discurso.
Depois foi buscar o relho.
Não é que fosse usar. Gaúcho de verdade não precisa. O relho, nas mãos certas, já é o recado inteiro. É a fronteira visível entre o que foi dito e o que pode vir a seguir. É a linguagem que dispensa tradução.
O responsável entendeu na hora. Entendeu tão bem, e com tamanha clareza, que decidiu não prolongar o diálogo. A retirada foi rápida. Muito rápida. Com uma desenvoltura que impressionou os presentes, e havia muitos. Saiu com a velocidade de quem de repente se lembrou de um compromisso inadiável, de bilhetes que precisavam ser conferidos, de prêmios que não podiam esperar, de qualquer coisa que ficasse bem longe dali.
O gaúcho ficou parado, relho na mão, olhando a nuvem de poeira que o outro deixou para trás. Esperou um pouco. Guardou o relho. Voltou ao trabalho.
O lixo, alguém recolheu. Não foi quem largou.
Porque gaúcho não abandona o que é seu, não foge do que é certo e não deixa o lugar sujo só porque o dono da bagunça não teve estômago para ficar.
O parque ficou limpo.
A história, essa, ficou suja. E corre até hoje.
