Há políticos que gostam de holofote. Outros preferem o barulho do palanque. Mas há também aqueles que, sem muito discurso pronto, conseguem colocar o mandato para funcionar onde ele mais importa: na vida das pessoas.

Foi o caso do vereador Iloir de Lima, o Padeiro, no caso da regularização fundiária da Vila Martins, em Marechal Cândido Rondon.

Na noite desta segunda-feira (4), dez famílias receberam as matrículas de seus imóveis. Parece apenas papel. Mas, para quem esperou anos, em alguns casos até quatro décadas, o documento tem outro peso. É a confirmação de que o terreno agora existe oficialmente, tem registro, tem dono e pode ser vendido, financiado ou transferido dentro da lei.

Uma espera de até 40 anos

A situação da Vila Martins se arrastava há muito tempo. A área teria origem em uma antiga chácara, depois loteada e vendida por contrato de compra e venda, sem a devida regularização. O problema se agravava porque o local não atendia às exigências urbanísticas do Plano Diretor do município, especialmente pela existência de uma rua estreita, sem saída e com acesso limitado.

Pelo caminho tradicional, a regularização não avançava.

A saída veio pela Lei Federal nº 13.465/2017, que trata da Reurb, a Regularização Fundiária Urbana. Pela legislação a regularização pode ocorrer conforme o núcleo urbano já está constituído, especialmente quando o poder público, no passado, deixou de fiscalizar a ocupação.

Foi por esse caminho que a Vila Martins conseguiu chegar ao fim do processo.

“Agora eu acredito”

A fala mais simbólica, relatada por Padeiro, veio de uma moradora antiga da localidade. Dona Tereza, já perto dos 80 anos e com problemas de saúde, teria dito que não queria morrer antes de receber o documento do imóvel em mãos.

A frase resume bem o tamanho da espera.

Durante anos, segundo o vereador, moradores ouviram promessas em época de campanha. Muita gente apareceu dizendo que resolveria. Pouca coisa saiu do lugar. Por isso, quando Padeiro começou a tratar do assunto, também enfrentou desconfiança da comunidade.

“Eles falavam: é mais um político querendo se dar bem nas nossas costas”, contou o vereador em entrevista ao blog.

A diferença é que, desta vez, o documento chegou.

Trabalho iniciado em 2023

Padeiro começou as tratativas da Vila Martins ainda em 2023. O processo foi protocolado em 2024 e agora teve a primeira entrega de matrículas. Ele buscou o apoio da empresa Poyer Assessoria Ambiental, responsável pelos trabalhos técnicos de regularização, citada pelo vereador como parte importante do encaminhamento.

O ato de entrega ocorreu no pavilhão comunitário da Igreja Católica, no bairro São Lucas, com a presença do prefeito Adriano Backes, do vice-prefeito Vanderlei Sauer, de secretários, vereadores, representantes da empresa e famílias beneficiadas.

A prefeitura já havia entregue, no fim do ano passado, a Certidão de Regularização Fundiária da Vila Martins. Agora, com as matrículas, o processo foi consolidado.

Mais de 200 imóveis na fila

A Vila Martins foi apenas o primeiro núcleo concluído. Segundo Padeiro, há mais nove processos em andamento e outro que deve ser protocolado nesta semana. Somando esses núcleos, a estimativa é de mais de 200 imóveis envolvidos.

Mas o problema é ainda maior.

O vereador calcula que Marechal Cândido Rondon tenha cerca de 700 imóveis em situação irregular, incluindo áreas na sede e nos distritos. Há casos, segundo ele, em Porto Mendes, Margarida, Iguiporã e Novo Três Passos.

O núcleo de Margarida, inclusive, estaria entre os mais adiantados no processo de regularização.

Quando a política faz sentido

A entrega das matrículas da Vila Martins não resolve todo o problema fundiário do município. Mas mostra um caminho.

Regularização fundiária não dá tanto cartaz quanto obra com placa grande. Não rende discurso inflamado nem fotografia de impacto. Mas muda a vida de quem passa anos morando em um terreno que, na prática, é seu, mas no papel ainda não existe.

É nesse tipo de pauta que a política mostra utilidade.

No caso da Vila Martins, o trabalho de Padeiro serve como exemplo de mandato que não se resume a sessão, voto e discurso. Às vezes, ser útil é insistir em um assunto burocrático, ouvir cobrança, levar pancada, enfrentar desconfiança e continuar até o documento chegar na mão de quem esperou 40 anos.

Para dez famílias, a espera acabou.

Para outras centenas, a cobrança continua.

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