A transferência do Batalhão de Polícia de Fronteira, o BPFron, de Marechal Cândido Rondon para Guaíra pode não ser apenas uma mudança provisória de endereço. Pelo que se desenha nos bastidores, o município pode ter perdido definitivamente a sede do batalhão.
Na 16ª Sessão Ordinária da Câmara, realizada nesta segunda-feira (18), o tema voltou com força à tribuna. O presidente do Legislativo, Valdirzinho Sachser, fez um desabafo duro, classificou a situação como inadmissível e lamentou que Marechal tenha ficado para trás em uma decisão que fortaleceu Guaíra.
O incômodo tem motivo. O prédio construído para receber o BPFron em Marechal Rondon estava praticamente pronto. Segundo Valdirzinho, faltaria um investimento estimado em cerca de R$ 500 mil para deixar a estrutura em funcionamento.
Mas, pelo andar da carruagem, o batalhão não deve voltar.
O que sobrou do batalhão
A informação que circula é ainda mais amarga para Marechal Cândido Rondon. Uma fonte ouvida pelo Blog relatou que, em conversa recente, ouviu de uma autoridade ligada à Segurança Pública do Estado que o município deve ficar “sem nada do BPFron mesmo”.
A mesma fonte afirmou que Cascavel deve absorver a estrutura que ainda estava vinculada ao município.
Ou seja: Guaíra ficou com a sede do batalhão. Cascavel pode ficar com parte da estrutura remanescente. E Marechal Cândido Rondon, que durante anos carregou o peso simbólico e estratégico de abrigar o BPFron, corre o risco de ficar apenas com um prédio inacabado e a lembrança.
É o tipo de situação que, politicamente, não se anuncia com fogos. Vai acontecendo aos poucos. Quando a cidade percebe, a placa já mudou de lugar.
Complexo de segurança
O discurso oficial, agora, aponta para outro caminho.
Em release divulgado pela assessoria de imprensa da Câmara, consta que a conclusão da obra que serviria como sede do BPFron foi tratada pelos vereadores com o secretário estadual de Segurança Pública, Coronel Saulo de Tarso Sanson.
Segundo o material, a intenção do Governo do Paraná é finalizar a estrutura e transformá-la em um “complexo de segurança”, uma pauta antiga da comunidade.
A ideia seria reunir no local as sedes das Polícias Militar e Civil, com possibilidade de incluir também a Delegacia da Mulher, o Instituto de Identificação e outros serviços da área de segurança pública.
Na prática, seria um reaproveitamento da estrutura. Pode até representar ganho administrativo para a cidade. Mas também reforça uma leitura incômoda: se o prédio vai virar outra coisa, é porque a sede do BPFron, ao que tudo indica, ficou mesmo no passado, ou melhor, pra Guaíra.
A cobrança dos vereadores
Além de Valdirzinho, os vereadores Sargento Marcos Spohr e Coronel Welyngton também abordaram o assunto na sessão. Os três integraram a comitiva que esteve em Guaíra para acompanhar a aula inaugural do curso de formação de novos soldados do BPFron.
Spohr relatou que o grupo conversou com o secretário estadual e com o comandante do BPFron, tenente-coronel Prado. Segundo ele, a cobrança foi pela conclusão da obra em Marechal e, se o retorno do batalhão não for possível, pelo aproveitamento do prédio por outras forças de segurança.
Coronel Welyngton afirmou que a viagem teve caráter estratégico. A comitiva entregou um documento ao secretário estadual relatando a preocupação com a segurança pública no município, especialmente diante da falta de efetivo e dos casos recentes de violência.
Guaíra comemora, Marechal cobra
O desabafo de Valdirzinho ganhou força justamente pelo contraste. Enquanto Guaíra recebeu o BPFron e agora concentra investimentos na área de segurança, Rondon tenta salvar alguma utilidade para uma estrutura que nasceu com outra finalidade.
Na tribuna, o presidente da Câmara disse ter ficado incomodado ao ver o prefeito de Guaíra comemorando a nova fase do batalhão, enquanto Marechal, nas palavras dele, ficou “chupando o dedo”.
A expressão resume bem o sentimento político do momento. O município teve o batalhão, perdeu a sede e agora tenta evitar que a perda seja completa.
Presídio: a outra perda na conta da segurança
Logo depois de desabafar sobre a transferência do BPFron para Guaíra, Valdirzinho também trouxe para a tribuna outra polêmica recente: a não vinda do presídio para Marechal Cândido Rondon.
O presidente da Câmara fez uma defesa firme do Legislativo. Segundo ele, os vereadores não podem ser responsabilizados pela perda do investimento, já que o projeto nunca chegou oficialmente à Câmara para ser colocado em pauta, discutido ou votado.
Valdirzinho criticou quem, na avaliação dele, colocou a “carroça na frente dos bois” ao levar o assunto para as redes sociais e organizar abaixo-assinados contra a instalação do presídio antes mesmo de haver uma proposta formal, dando um tapa de luvas na vereadora Tânia Maion, opositora do projeto. Para ele, naquele momento existia apenas uma tratativa entre o governo municipal e o Governo do Estado.
O vereador também lamentou que Marechal tenha passado cerca de três meses debatendo um assunto que sequer havia sido oficialmente encaminhado ao Legislativo.
Na fala, Valdirzinho conectou diretamente a polêmica do presídio ao debate sobre segurança pública. Segundo ele, a conta já começa a chegar com a falta de efetivo e de policiamento. Na visão do presidente da Câmara, o município perdeu investimentos e estruturas que já estavam ao seu alcance, enquanto Guaíra acabou sendo contemplada com recursos e melhorias em diferentes frentes da segurança.
