O vereador rondonense Policial Fábio (PL) foi à tribuna da Câmara Municipal, durante a 17ª Sessão Ordinária desta segunda-feira (25), para cobrar providências contra as constantes quedas de energia da Copel e o possível aumento na conta de luz. A pauta é legítima. O problema é que, na costumeira pressa de transformar todo assunto em discurso ideológico, ele acabou cometendo uma gafe difícil de ignorar.
Ao orientar a população a registrar reclamações junto à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Fábio acertou no caminho institucional. As quedas de energia precisam ser cobradas. O consumidor que fica sem luz, perde produção, tem aparelho queimado ou vê o prejuízo bater à porta não quer saber de desculpa técnica. Quer serviço funcionando.
Também é legítima a preocupação com a proposta de aumento na tarifa. A própria Aneel informou, em audiência pública realizada em Curitiba, que a revisão tarifária da Copel previa efeito médio de 19,20% para os consumidores, com 19,15% para os residenciais. É aumento pesado, que afeta famílias, empresas, produtores rurais e acaba chegando ao preço de quase tudo.
Até aí, Fábio pisava em terreno firme.
O problema começou quando a crítica deixou de mirar o serviço público e foi empurrada para dentro da trincheira política. Ao responsabilizar o atual governo federal pela atuação da agência e chamar a Aneel de “Aneel do PT”, o vereador escolheu a frase de efeito no lugar da checagem. Ou, se checou, foi desonesto.
E aí a conta não fecha.
O atual diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, foi nomeado em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro, aliado político e ideológico de Fábio. Seu mandato vai até 2027. Ou seja, ao tentar pendurar a agência no pescoço do atual governo, o vereador esqueceu de olhar para a origem do comando da própria Aneel.
Não é detalhe. É o tipo de informação que muda o sentido da crítica.
Agência reguladora não é puxadinho de governo
Outro ponto ignorado no discurso é que a Aneel não funciona como uma secretaria comum, em que o ministro manda e o diretor obedece. Assim como a Anvisa, na área da saúde, a Aneel é uma agência reguladora, com diretoria colegiada, mandatos fixos, regras próprias e autonomia técnica.
O exemplo da Anvisa, no governo Bolsonaro, ajuda a entender. Mesmo sob críticas do então presidente à CoronaVac, a agência aprovou o uso emergencial da vacina em janeiro de 2021. Isso não significa que uma agência seja uma ilha. Há indicação política, cobrança de ministério, pressão institucional e influência do governo. Mas influência não é controle absoluto.
No caso da Aneel, essa relação ficou ainda mais clara em 2024, quando o ministro de Minas e Energia do atual governo, Alexandre Silveira, cobrou publicamente a agência por atrasos em processos e chegou a falar em intervenção. Ou seja, o próprio governo que Fábio acusa de mandar na Aneel também já entrou em conflito com ela.
A realidade é mais complexa do que o discurso de tribuna permite enxergar.
Quando a ideologia corre na frente
O episódio expõe um vício cada vez mais comum na Câmara de Marechal Cândido Rondon. Alguns vereadores insistem em usar a tribuna como palanque ideológico permanente, mesmo quando o assunto poderia ser tratado de forma objetiva, prática e útil para a população.
A cidade tem problemas concretos. Quedas de energia, estradas, saúde, filas, educação, infraestrutura, fiscalização, transporte, segurança, impostos, atendimento público. Mas, muitas vezes, o debate local acaba sequestrado por discursos prontos, importados da guerra política nacional.
Foi o que mais uma vez aconteceu neste caso.
Fábio poderia ter feito uma fala forte e necessária. Poderia ter cobrado a Copel, orientado a população, acionado órgãos de defesa do consumidor, mobilizado deputados e pressionado a Aneel com base em dados. Poderia ter ficado no problema real.
Preferiu a lacração ideológica.
E quando a ideologia vem antes da razão, cedo ou tarde o resultado aparece: desinformação, gafe, vexame. A fala pode até render aplauso entre aliados, mas enfraquece a cobrança pública e desvia o foco do que realmente importa.
Policial Fábio não errou ao defender os consumidores. Errou ao transformar uma pauta concreta, que afeta famílias, produtores e empresas, em discurso ideológico mal conferido.
A conta de luz já está pesada demais. Não precisa vir acompanhada de uma conta política que não fecha.
