Fui convidado para acompanhar o encontro político que marcou o apoio do grupo liderado pelo ex-prefeito Marcio Rauber ao deputado estadual Gugu Bueno, na Associação da Polícia Miltar na noite desta quinta-feira (15). Não pude estar presente por conta de compromissos em uma feira de inteligência artificial, em São Paulo. Mas consegui acesso às gravações do cerimonial e dos principais discursos.
Os bastidores provavelmente renderam ainda mais do que o microfone captou. Entre cumprimentos, conversas de canto, reencontros e cochichos de corredor, é onde a política costuma mostrar a temperatura real. Mas o que foi dito publicamente já basta para uma leitura clara: o evento teve endereço eleitoral em 2026, mas o CEP político estava mais adiante: 2028.
Oficialmente, a reunião serviu para colocar Gugu como o nome do grupo de Marcio na disputa para deputado estadual. Na prática, marcou a reorganização de um bloco político que hoje se posiciona como oposição à administração do prefeito Adriano Backes e do vice Vanderlei Sauer.
Marcio não apenas anunciou apoio. Ele falou em ingratidão, em feridas abertas, em reconstrução de grupo político e em um projeto que passa obrigatoriamente pela eleição de 2026 para chegar fortalecido na próxima disputa municipal. Em determinado momento, admitiu publicamente que “o nosso alvo é 28, mas ele passa obrigatoriamente pelas eleições de 2026”.
A ruptura que ainda sangra
A reunião também serviu para colocar em praça pública aquilo que já circulava nos bastidores desde antes da posse do atual governo municipal: a ruptura entre Marcio Rauber com Adriano Backes.
Backes e Sauer chegaram ao poder com apoio desse mesmo campo político. Mas a relação azedou antes mesmo de janeiro de 2025. Desde então, o que era aliança virou distância. E agora começa a ganhar forma de oposição organizada.
O pano de fundo tem nome, sobrenome e gabinete em Curitiba.
Marcio apoiava Hussein Bakri, trouxe o deputado para Marechal Cândido Rondon e ajudou a construir uma votação expressiva no município em 2022. Depois, Bakri acabou ficando com grupo do atual prefeito, que hoje o apoia. Para Marcio, esse movimento deixou marcas.
No discurso, o ex-prefeito disse que, antes mesmo de “buscar o interruptor de luz” em 31 de dezembro de 2024, já sofria as consequências da ingratidão “aqui em Marechal Rondon e lá em Curitiba”. Ouça:
Foi nesse contexto que Marcio soltou uma das frases mais fortes da noite. Disse que aqueles que o deixaram pelo caminho “construíram, sem saber, um cavalo de guerra”. A expressão resume bem o tom do encontro. Não era apenas mágoa. Era recado. Marcio se apresentou como alguém ferido, mas de volta ao campo político, disposto a transformar a ruptura em combustível eleitoral.
Gugu entra como deputado, mas também como símbolo
A escolha de Gugu Bueno não foi apresentada apenas como uma opção eleitoral. Foi vendida como resposta política.
Gugu, deputado estadual por Cascavel e primeiro-secretário da Assembleia Legislativa, passa a ser o nome em torno do qual esse grupo pretende se reorganizar. Em entrevista, Gugu afirmou que se sente honrado por ser convidado por lideranças de Marechal e disse que assume o compromisso de representar o município.
No discurso principal, Gugu também fez questão de reconhecer o peso do grupo que o recebe. Disse que Marechal passa a ter “destaque muito especial” em sua caminhada política e afirmou que estará junto em 2026, 2027 e 2028.
Não foi uma frase solta. Foi senha. Asista:
Os vereadores na trincheira
O encontro reuniu vereadores, suplentes e lideranças que formaram a base política das últimas eleições municipais. Entre os vereadores, estiveram Valdirzinho Sachser, Coronel Welyngton e Rafael Heinrich, todos do União Brasil e eleitos no mesmo campo político que agora se alinha novamente a Marcio. Do União, só sobrou a vereadora Marciane Specht, que segue aliada de Backes.
Coronel Welyngton falou em “arrumar a casa” e disse que Marechal Cândido Rondon precisa voltar a ocupar um patamar de referência na região Oeste e no Paraná. Também afirmou que o grupo tem responsabilidade para levar o nome de Gugu Bueno aos rondonenses.
Valdirzinho, por sua vez, usou uma imagem direta: disse que se sentiu “órfão” e que Marechal teria sido “deixada a pé” pelo deputado que o grupo havia ajudado. Também afirmou que campanha não se ganha “atrás de escrivaninha” nem “atrás de cargos”, mas indo aos bairros, ao interior e pedindo voto.
Rafael também deu o tom de retomada. Falou em “frustrações políticas” recentes e disse que o grupo começa a se organizar para devolver à população uma gestão “saudável e frutífera”.
Veja um pouco das falas dos vereadores:
Suplentes também no jogo
Um dos pontos que mais chamaram atenção foi o alinhamento não apenas de vereadores do União Brasil, mas também de suplentes de outras forças partidárias.
Nas fotos aparecem nomes como Jaimer Tasso e Neco do Peixe, os dois primeiros suplentes do PL. O detalhe político é que os vereadores titulares do PL, embora eleitos pela oposição, hoje estão alinhados ao governo municipal. Já os suplentes, que teriam expectativa de acomodação, acabaram não encontrando espaço e agora se aproximam do grupo de Marcio.
Também estiveram nesse campo nomes como Claudemir Suzuki, suplente do Republicanos, e Freddy Walter, suplente do MDB. É o tipo de movimentação que, isoladamente, poderia parecer detalhe. Em conjunto, mostra que a reorganização não está restrita a uma sigla.
É um agrupamento de ressentidos, desalojados, fiéis ao ex-prefeito e interessados no próximo capítulo da política local. Cada um com sua razão. Todos olhando para a mesma direção.
Élio Rusch dá o carimbo histórico
A presença do ex-deputado Élio Rusch deu ao encontro um peso de memória política. Rusch lembrou que política se faz a médio e longo prazo, citou o planejamento para 2026, 2028 e até 2030, e afirmou que Gugu tem viabilidade, credibilidade e acesso ao Governo do Estado.
Na prática, Rusch funcionou como uma espécie de avalista político do movimento.
Não apenas por sua trajetória, mas pelo simbolismo. Marechal já teve deputados da casa e esse sentimento segue vivo em parte da política local. Como Marcio decidiu não disputar uma cadeira na Assembleia neste momento, o grupo precisava de um nome competitivo para chamar de seu.
Encontrou em Gugu Bueno esse caminho. Veja trecho da fala de Elio:
O recado foi dado
O evento não foi apenas um lançamento de apoio. Foi um aviso.
A oposição ao governo Backes/Sauer começa a se organizar com rosto, discurso, palanque e projeto. O primeiro teste será a votação de Gugu Bueno em Marechal Cândido Rondon. Quanto maior ela for, maior será o poder de barganha e de afirmação desse grupo para 2028.
Marcio sabe disso. Gugu também.
E os atuais ocupantes do Paço Municipal provavelmente também estejam entendendo.
O relógio eleitoral de 2028 já começou a fazer barulho. E, pelo tom dos discursos, não será um despertador discreto.
