Morreu neste final de semana, num acidente de helicóptero, o general Lino Oviedo, candidato a presidente do Paraguai para as eleições deste ano. Ele sempre foi uma figura polêmica em meio a política paraguaia, mas ao mesmo tempo, tinha uma liderança impressionante.

Durante os cerca de 4 anos que viveu exilado no Brasil, frequentava os municípios da nossa região. Era comum encontra-lo na Festa do Cupim em Pato Bragado, na Festa do Boi no Rolete, no Show Rural e outros eventos.

Foi justamente com Oviedo que fiz uma das entrevistas mais marcantes dos meus 22 anos de jornalismo. Não por ser ele o entrevistado, mas pelas circunstâncias em que a entrevista aconteceu.

Na ma­drugada do dia 27 de março de 2005 partimos eu e o colega Neri Wagner, diretor da Revista Região, rumo a Assunção, capital do Paraguai. O objetivo: entrevistar o ex-comandante do Exército paraguaio, general Lino Oviedo, preso na Prisão Militar de Viñas Cue, nos arredores da capital paraguaia.

A entrevista havia sido combinada por Neri com assessores do general, em Foz do Iguaçu. Eles nos fariam entrar na prisão militar como “amigos brasileiros” de Oviedo, porque ele estava proibido de conceder entrevistas e o acesso de jornalistas não era permitido.

Por volta das 11 horas da manhã daquele domingo chegamos a Assunção. Nos encontramos com assessores de Oviedo no estacionamento de um shopping e, de lá, seguimos até a prisão militar.

Ao chegarmos no local, encontramos muitos simpatizantes políticos de Oviedo acampados diante do quartel.

Apesar de ser dia de visitas, não foi tão fácil assim entrar. Havia muita desconfiança por parte dos militares paraguaios. Mas, a desenvoltura de uma das advogadas de Oviedo, após muita conversa, conseguiu nos colocar para dentro de Viñas Cue.

Após caminharmos por cerca de uns 500 metros, chegamos até um último ponto de triagem antes de ter acesso ao local onde Oviedo estava detido desde 2004, quando retornou ao Paraguai para defender-se dos crimes que era acusado e, posteriormente, candidatar-se a presidente.

Neste ponto a revista foi mais minuciosa, inclusive com o uso de detectores de metais. Havíamos levado tão somente uma máquina fotográfica portátil. Esta acabou sendo retida nesta revista.

Após a revista, apenas uma pessoa por vez podia ir até o pavilhão onde Oviedo estava. A conversa do visitante tinha que ser junto a uma mesa, de onde os militares pudessem observar tudo. E cada visitantes só tinha 15 minutos com o general.

Como seria eu que iria entrevistar o general, combinamos que Neri iria primeiro e acertasse qualquer detalhe que estivesse faltando para o momento que eu chegasse até ele. Durante a visita de Neri, a esposa de Oviedo, que tinha acesso diário ao general, acomodou um gravador sob um jornal que estava sobre a mesa. Estava tudo pronto para a entrevista.

Neri não gastou os seus 15 minutos. Quando entrei, iniciamos logo a conversa. Conversamos sobre a sua prisão, sobre as queixas que tinha do governo do presidente Nicanor Duarte Frutos, sobre os brasiguaios e sobre a relação que gostaria de manter com o Brasil se chegasse à presidência.

A conversa se alongou, passou dos 20, quase chegou aos 30 minutos. Neri me relatou depois, que os guardas começaram a ficar impacientes e, por muito pouco, não interromperam a minha visita.

Se isto tivesse ocorrido, provavelmente eu teria perdido boa parte do conteúdo, pois não conseguiria levar a fita. Aliás, a fitinha do minigravador, o próprio Oviedo retirou do aparelho e, discretamente,  enfiou dentro da minha meia, enquanto eu esticava a perna por baixo da mesa em sua direção.

Não era pra menos. Quando saímos, passamos por nova revista. A essa altura a pequena fita já havia deslizado para dentro do meu sapato e não foi percebida pelos militares.

Antes de sair, Lino ainda me presenteou com um CD com músicas de sua luta e um cartão, padronizado e personalizado, que entregava a todos os amigos que o visitavam na prisão.

Saímos escoltados por dois carros dos aliados de Oviedo, até na saída da cidade. A ânsia de voltar para o Brasil o mais rápido possível foi tamanha que esquecemos de abastecer o carro e, faltando poucos quilômetros para a fronteira, acabou a gasolina. Uma moça de mobilete nos socorreu e trouxe 2 litros de gasolina de um posto próximo.

A matéria foi publicada como destaque de capa da edição seguinte da Revista Região e repercutiu em diversos veículos de comunicação, principalmente do Paraguai, onde até mesmo o ABC Color, principal diário do país, destacou a matéria.

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