Pinóquio, ao menos, tinha a decência de ter um nariz dedurador. Cada mentira ficava registrada no rosto, visível para todos. Na ficção, isso servia de lição. Na vida política de Marechal Cândido Rondon, a lição parece não ter chegado ao destinatário certo.
A vereadora Tania Aparecida Maion (Republicanos) consolidou uma rotina que poucos políticos teriam coragem de sustentar: ouvir dos próprios colegas de plenário, repetidamente, que seu discurso não encontra respaldo nos fatos. E, aparentemente, seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
O parente que corrige na frente de todos
Na sessão desta segunda-feira (06), o embate foi particularmente constrangedor porque veio de dentro de casa. O vereador Marciel Escher, também do Republicanos, mesmo partido de Tania, não se deu ao trabalho de rodeios ao rebater uma acusação de Tania a respeito de uma estrada na Linha São Cristóvão.
No seu pronunciamento da tribuna, Tania disse que no início do seu mandato teria conseguido em Curitiba os recursos para pavimentação asfáltica dos 7 quilômetros da estrada, mas que por falta de projeto e por interesses obscuros o recurso teria se perdido. Veja a fala dela:
Ao chegar sua vez de usar a tribuna, o colega de partido e ex-secretário de Agricultura, Marciel Escher disse categoricamente que Tania estava mentido:
“Acho que a senhora tá mentindo porque foi feito 2 km, tem projeto”.
Ele foi além e desafiou a parlamentar a mostrar o número do protocolo junto ao Governo do Estado, arrematando com um “não plante desinformação à sociedade”. Veja a fala de Marciel:
E essa não foi a primeira vez que Marciel encarou a colega de partido. Recentemente, Tania criticou a prefeitura por não oferecer subsídios de maquinário e pedras aos agricultores, comparando Marechal Cândido Rondon desfavoravelmente com Itaipulândia. Marciel precisou lembrá-la de um detalhe inconveniente: a Lei de Fomento Agropecuário já garante esse benefício. Detalhe ainda mais inconveniente: a própria vereadora havia votado a favor da lei que dizia não existir.
A lista cresce, o nariz também
Tania parece ter transformado o mandato numa linha de produção em série de narrativas alternativas. O problema dela é que, no plenário, há cada vez mais gente que não tem mais paciência para o teatro. E a lista de vereadores que, direta ou indiretamente, já chamou Tania de mentirosa só cresce.
No começo era só o ex-vereador Fernando Nègre (PT) que afirmava que o Legislativo passava vergonha por causa da colega que mentia “compulsivamente”. Ele também apontou a “política do medo” disseminada por ela no debate sobre a construção do presídio.
Fernando não é mais vereador, mas nem por isso outros deixam de rotular a colega de mentirosa.
O vereador Iloir de Lima (PL), o Padeiro, descortinou a metodologia: edição estratégica de vídeos, cortes cirúrgicos, narrativas fabricadas para jogar a população contra a própria Câmara. Mais recentemente, chamou Tania de “cínica” e resumiu o esquema com precisão cirúrgica: ela busca o bônus da política, mas “foge do ônus da verdade”.
O Coronel Welyngton (União Brasil) no calor da discussão sobre o presídio propôs um debate público, afirmando categoricamente que a vereadora “faltava com a verdade nas redes sociais” sobre o tema.
Até o vereador Cleiton Freitag, o Gordinho do Suco (Progressistas), já disparou contra ela e deu nome ao fenômeno: “jogo de cena”. A tática, segundo ele revelou publicamente, consiste em assinar pareceres favoráveis nas comissões internas para, no plenário, votar contra e posar de heroína na internet. “Um cheque sem fundo”, como ele mesmo definiu.
O eleitor não é figurante
A filósofa política alemã Hannah Arendt, ao analisar a mentira na política, alertou que “a mentira política é uma tentativa de mudar o mundo”, mas no sentido de substituir a realidade por uma versão mais conveniente para quem a conta.
Transformar o mandato numa linha de montagem de vídeos editados, enquanto os fatos são inconvenientes demais para aparecer na tela, é uma escolha. Uma escolha que os colegas de plenário já não deixam passar em silêncio e que a comunidade rondonense merece conhecer sem filtros, ou sem cortes.
Pinóquio, ao final da história, aprendeu a lição.
