A movimentação recente na política estadual e a falta de definição de uma chapa governista dá a impressão que o governador Ratinho Junior pode estar menos preocupado com a unidade formal de seu grupo e mais interessado na eficácia eleitoral.

O PSD do governador perdeu recentemente o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca (foi pro MDB) e o presidente da Assembleia Legislativa Alexandre Curi (migrou pro Republicanos). Mas, nem por isso eles romperam com o Palácio Iguaçu, como fez o NOVO, por exemplo. Pelo contrário, podem representar uma reorganização funcional da base aliada.

Nesse contexto, ganha força a leitura de que Ratinho não pretende concentrar forças em uma única candidatura. A hipótese de manutenção de dois palanques competitivos dentro do mesmo campo político surge como alternativa pragmática diante do crescimento de Sergio Moro (PL) nas pesquisas.

Fragmentar para sobreviver

A lógica por trás dessa estratégia é simples. Com mais de um candidato competitivo orbitando a base governista, aumenta a chance de diluir votos no primeiro turno e impedir uma vitória direta de Moro. Ao mesmo tempo, preserva-se a hegemonia do grupo no segundo turno, quando a tendência natural seria a reunificação das forças.

A presença de nomes como Guto Silva no PSD e Alexandre Curi em outra sigla, mas ainda alinhado politicamente ao governo, cria um cenário em que a disputa interna deixa de ser um problema e passa a ser instrumento. Trata-se de uma fragmentação controlada, com objetivo claro de levar a eleição para a segunda etapa.

O papel de Cristina Graeml

A filiação de Cristina Graeml ao PSD reforça essa engrenagem. Ao decidir andar com o partido de Ratinho e não seguir Sergio Moro no PL indica que ela vai estar numa chapa majoritária para o Senado ou para vice-governadora.

Além disso, sua entrada não apenas recompõe parcialmente as perdas recentes do partido, como também adiciona um elemento estratégico importante: a capacidade de diálogo com um eleitorado que, até pouco tempo, orbitava a mesma esfera de influência de Moro.

Cristina surpreendeu na eleição para a prefeitura de Curitiba há dois anos, quando deu dor de cabeça para esse mesmo grupo de Ratinho Junior, que teve que “pedalar” para garantir a vitória de Eduardo Pimentel. O povo curitibano, pra não dizer o paranaense, hoje sabe bem quem é Cristina.

Sua possível posição como vice ou até mesmo candidata ao Senado amplia o alcance da chapa e ajuda a disputar nichos específicos do eleitorado de direita. Mais do que um reforço nominal, Cristina representa uma peça de conexão entre diferentes segmentos políticos.

Base aliada ou múltiplas frentes

O fato de Curi e Greca não romperem com o governo é detalhe central para compreender o desenho em curso. A base aliada deixa de ser uma estrutura rígida e passa a funcionar como uma rede de pré-candidaturas com autonomia relativa, mas convergência estratégica.

Há ainda um fator de calendário que reforça essa leitura estratégica. Nesta semana se encerram dois prazos importantes: o das desincompatibilizações para quem pretende disputar cargos em outubro e o da chamada janela partidária, período em que políticos podem trocar de legenda sem risco de perda de mandato.

Esses movimentos, no entanto, não obrigam uma definição imediata de candidaturas majoritárias. O prazo decisivo só ocorre entre 20 de julho e 5 de agosto, durante as convenções partidárias, quando partidos e federações oficializam chapas e coligações.

Na prática, isso dá a Ratinho Junior uma margem confortável para manter múltiplas articulações em aberto, testar cenários, medir forças regionais e ajustar alianças ao longo do processo, sem a necessidade de uma definição precoce. Também reduz o custo político de uma escolha única, especialmente em um ambiente de resistências internas ao nome de Guto Silva.

Risco calculado

A adoção de dois palanques não é isenta de riscos. Existe a possibilidade de dispersão excessiva de votos ou de conflitos que escapem ao controle do grupo. No entanto, diante de um adversário consolidado como Moro, a inércia pode ser ainda mais perigosa.

Ao optar por uma estratégia mais flexível, Ratinho sinaliza que está disposto a administrar tensões internas em troca de maior competitividade eleitoral. A eleição de 2026, nesse cenário, tende a ser menos sobre unidade partidária e mais sobre engenharia política.

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