Com quatro nomes consolidados como favoritos e um histórico eleitoral rico para comparação, a disputa pelo voto rondonense na eleição de 2026 para a Assembleia Legislativa do Paraná promete ser uma das mais competitivas e equilibradas das últimas décadas.

Fiz um levantamento dos números das últimas cinco eleições para deputado estadual na cidade. Estes números de todas as eleições dos anos 2000 oferece pistas valiosas, mas também levanta dúvidas que só as urnas vão responder.

O fim da polarização

Por muitas décadas, as eleições para deputado estadual em Marechal Cândido Rondon foram polarizadas foi assim no século passado, com Werner Wanderer e Gernote Kirinus e depois com Elio Rusch e Ademir Bier.

Estes dois últimos dominaram o cenário eleitoral por mais de duas décadas com mão de ferro: em 2002, os dois juntos concentraram impressionantes 85% dos votos no município. Em 2014, quando a polarização já dava sinais de cansaço, os dois ainda somaram mais de 21 mil votos e apenas um terceiro candidato (José Carlos Schiavinato) rompeu a barreira dos mil votos.

O cenário foi se fragmentando gradualmente. Em 2018, seis candidatos superaram os mil votos. Em 2022, foram cinco.

Mas o padrão mais relevante que emerge dessa série histórica é outro: nas duas últimas eleições, quatro candidatos concentraram entre 60% e 62% dos votos no município. Esse patamar, que antes era monopolizado por dois nomes, agora é dividido entre quatro. E é exatamente esse o cenário que se desenha para 2026.

Os quatro favoritos e suas bases

Hussein Bakri (PSD) entra na disputa com o maior trunfo possível: o apoio explícito do prefeito Adriano Backes e da espinha dorsal do grupo situacionista. Com o respaldo do vice-prefeito Vanderlei Sauer e de pelo menos cinco vereadores (Marciane Specht, Marciel Escher, Juliano Oliveira, Iloir Padeiro e Sargento Spohr), Bakri chega à largada como favorito natural.

O histórico local é quase uma lei: o candidato do prefeito sempre foi o mais votado. Isso aconteceu em 2002, 2010, 2014, 2018 e 2022. A única exceção foi 2006, quando Edson Wasem estava no comando e Bier fez ligeiramente mais votos que Rusch.

Natan Sperafico (PP) é o segundo nome do grupo situacionista. Em 2018, fez 1.587 votos (5,58%) numa eleição em que ainda não tinha a estrutura política atual. O PP teve em 2022, com Anderson Bento Maria, uma performance expressiva: 3.929 votos (12,88%).

Natan herda parte dessa base e conta com o apoio de ao menos dois vereadores do grupo (Gordinho do Suco e Carlinhos Silva). A grande pergunta é se ele consegue repetir ou superar o número de Anderson e se a divisão de votos com Bakri é administrável para o grupo.

Gugu Bueno (PSD) representa o movimento mais intrigante da eleição. Apesar de ser do mesmo partido de Bakri, constrói uma rede de apoio própria e robusta: o presidente da Câmara Valdirzinho Sachser, os vereadores Rafael Heinrich e possivelmente Coronel Welyngton (todos do União Brasil), o ex-prefeito Marcio Rauber e os três primeiros suplentes do União (Verde, Pedro Rauber e Robson Lopes), todos com mais de 800 votos em 2024.

Gugu não entra para passeio. Se a turma de Marcio Rauber realmente fechar a porteira ao redor dele, a disputa pelo topo pode ficar mais apertada do que muita gente imagina, com risco inclusive de ultrapassar Bakri, que vai dividir votos com Natan.

João Eduardo dos Santos, o Juca (Podemos), é o único candidato genuinamente local entre os favoritos e carrega o peso de uma tradição política que remonta ao MDB histórico da cidade. Com apoio esperado da vereadora Tania Maion e dos ex-vereadores Dionir Briescht e Arion Nasihgil, Juca representa a oposição mais tradicional.

A questão central para ele é: o MDB de Moacir Froehlich e o legado de Ademir Bier vão se somar à sua candidatura? Se sim, Juca pode ter uma performance acima do esperado. Se esses votos se dispersarem ou migrarem para outro candidato, sua tarefa fica bem mais difícil.

O prefeito garante dois nomes no topo? Ou Backes vira exceção como Wasem?

A comparação com 2006 é tentadora e serve de alerta. Edson Wasem era prefeito, mas Bier fez mais votos que Rusch, quebrando a regra do candidato do prefeito ser o mais votado. O que explica aquela exceção?

Wasem estava desgastado politicamente. Vinha de uma reeleição em 2004 muito difícil, tendo vencido por apenas 27 votos. Bier era um nome consolidado com base eleitoral própria muito sólida, e Rusch, herdou parte do desgaste do governo municipal.

Em 2026, Bakri enfrenta algo parecido: Gugu Bueno também vem de uma estrutura política poderosa, herdeira direta do grupo Rauber. Se os votos do ex-prefeito migrarem em peso para Gugu, o candidato do atual prefeito pode ser superado ou a diferença pode ser pequena o suficiente para criar um empate técnico politicamente constrangedor.

Quanto a Natan, a dúvida é se o PP de 2026 repete a força de 2022 com Anderson Bento Maria. Anderson fez 3.929 votos, a terceira maior votação da cidade. Natan em 2018 fez 1.587. A evolução da base do partido e o apoio situacionista podem projetá-lo a um patamar superior ao de 2018, mas chegar aos quase 4 mil de Anderson parece um desafio considerável, especialmente dividindo o campo do grupo com Bakri.

Somados, Bakri e Natan precisariam de algo em torno de 11 a 12 mil votos para se aproximar dos 46% que o grupo Rauber fez em 2022. Isso é factível, mas exige uma mobilização intensa e eficiente, sem muita sangria para Gugu.

A esquerda pode surpreender?

Nas últimas eleições, a esquerda tem crescido timidamente em Marechal Cândido Rondon. Em 2022, Paulo Porto (PT) fez 1.256 votos (4,12%) e Professor Lemos 764 (2,50%). Para 2026, a aposta é em Nelsi Welter, nome de Toledo, que será embalada por Fernando Nègre, principal liderança local do partido, mas com Lemos ainda podendo beliscar votos na cidade.

O crescimento do PT no interior do Paraná é real, mas transformá-lo em surpresa eleitoral em Marechal Cândido Rondon exigiria uma conjuntura muito favorável ou uma fragmentação grande dos votos. Não está descartado, mas tampouco parece ser o cenário mais provável.

A pulverização voltará a crescer?

Nas duas últimas eleições, os quatro primeiros concentraram 60% ou mais dos votos. Com quatro candidatos com estruturas razoavelmente definidas disputando esse espaço, e sem que se vislumbre outro movimento organizado com lideranças locais relevantes, a tendência é que a concentração se mantenha nesse patamar ou até aumente ligeiramente.

O risco de pulverização existe, mas vem mais das beiradas: candidatos de fora com votações pulverizadas entre eleitores sem preferência definida, e a esquerda consolidando um bloco próprio de 5% a 8% dos votos. O núcleo dos quatro favoritos, porém, parece sólido o suficiente para manter a concentração histórica recente.

O que esperar, afinal?

Se a eleição fosse desenhada agora, o roteiro mais plausível seria este:

Bakri largando como favorito para liderar;
Gugu correndo por fora com chance real de encostar;
Natan numa faixa intermediária, competitivo mas dependente do empenho dos padrinhos;
Juca tentando transformar voto de identidade local em musculatura eleitoral.

Se o passado serve de guia, 2026 deve consagrar Hussein Bakri como o mais votado, mas com margem menor do que a de Bakri em 2022. Gugu Bueno tende a ser a segunda ou terceira força, dependendo de como Rauber mobilizar sua rede. Natan deve superar seus 1.587 de 2018, mas talvez não chegue aos quase 4 mil de Anderson. E Juca, o único local da lista, tem chance real de surpreender se o MDB histórico da cidade fechar com ele.

A eleição de 2026 em Marechal Rondon será, acima de tudo, um teste para o prefeito Adriano Backes: ele consegue o que quase todos os seus antecessores conseguiram, garantir que os candidatos do seu grupo liderem a votação local? Ou 2026 entrará para a história como a segunda exceção, ao lado de 2006?

Raio-X das últimas eleições em Marechal

2002 – Polarização quase absoluta
Elio Rusch (PFL) – 10.086 votos (45,9%)
Ademir Bier (MDB) – 8.781 votos (39,9%)
Elton Welter (PT) – 558 votos (2,5%)
Os dois primeiros somaram mais de 85% dos votos
O terceiro nome sequer chegou em 1.000 votos

2006 – A exceção do prefeito
Ademir Bier (MDB) – 9.920 votos
Elio Rusch (PFL) 9.546 votos
Danilo Johann (PL) – 1.264 votos
Prefeito não fez o mais votado (caso raro)
Só 3 candidatos acima de 1.000 votos

2010 – Duopólio com um terceiro distante
Ademir Bier (MDB) – 11.777 votos
Elio Rusch (DEM) – 6.406 votos
Ítalo Fumagali (PSC) – 4.663 votos
Só 3 candidatos acima de 1.000 votos

2014 – Última da polarização clássica
Ademir Bier (MDB) – 12.331 votos
Elio Rusch (DEM) – 9.251 votos
José Carlos Schiavinato (PP) – 1.362 votos
Só 3 candidatos acima de 1.000 votos

2018 – Abertura maior, mas ainda concentrada
Elio Rusch (DEM) – 7.338 votos (25,79%)
Ademir Bier (MDB) – 5.848 votos (20,55%)
Delegado Francischini (PSL) – 2.232 votos (7,84%)
Natan Sperafico (PP) – 1.587 votos (5,58%)
Jean Martins (PRTB) – 1.257 votos (4,4%)
Sargento Kaiser (PPS) – 1.152 votos (4%)
Os 4 primeiros somaram 59,76%
Teve 6 candidatos acima de 1.000 votos, 4 locais

2022 – Mais nomes, mas concentração mantida
Hussein Bakri (PSD) – 7.161 votos (23,47%)
Ademir Bier (PSD) – 4.755 votos (15,59%)
Anderson Bento Maria (PP) – 3.929 votos (12,88%)
Marcel Micheletto (PL) – 3.077 votos (10,09%)
Paulo Porto (PT) – 1.256 votos (4,12%)
Os 4 primeiros somaram 62% dos votos
Só 5 candidatos acima de 1.000 votos

 

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