Tem gente que some da política como quem fecha a porta sem fazer barulho. E tem gente que some porque, em algum momento, a política faz barulho demais por dentro. Aríston Limberger, prefeito de Marechal Cândido Rondon de 1997 a 2000, encaixa nas duas categorias.
Depois de anos de silêncio, em entrevista ao portal O Presente, ele aparece no modo “Histórias da Nossa História”: menos palanque, mais confissão. E, para quem lembra do Aríston dos discursos que paravam evento, a conversa tem gosto de reencontro com um personagem que a cidade guardou numa gaveta… e que agora resolveu abrir.
Antes do gabinete, o coral
A trajetória que ele mesmo narra tem um detalhe que explica muita coisa: Aríston veio da Igreja, da música, do convívio comunitário. Foi regente/maestro do coral por mais de duas décadas. Ou seja: aprendeu cedo a ler plateia, segurar tempo, construir emoção.
E isso não é coisa só dele. A família Limberger tem isso na veia. Difícil ter um Limberger que não toque violão, piano, que cante com afinação. É da linhagem.
Na política, isso virou marca registrada. Ele não chama de “técnica”; chama de presente . E confessa que estudava para acertar “as palavras certas”. O resultado? Aquele tipo de oratória que, no interior, vale quase como obra: junta gente, cria clima, dá rumo.
Quem acompanhou a política rondonense nos anos 90 certamente haverá de se lembrar da introdução icônica e arrepiante de Aríston nos seus dicursos de campanha:
“Rondonenses de fé e de coração…”
O “vírus” da política: fascínio e propósito
Aríston conta que relutou quando o ex-prefeito Ilmar Priesnitz o convidou para ser chefe de gabinete, mas acabou “fascinado” pelos bastidores. Ele defende a “boa política” como o melhor lugar para realizar coisas . E aí mora um contraste bonito (e perigoso): quanto mais alguém acredita nisso, maior a decepção quando descobre o outro lado da moeda.
No pacote de símbolos do mandato, ele lembra com carinho de um gesto simples e bem rondonense: fazer as crianças aprenderem o hino do município. Pode soar pequeno, mas tem recado: identidade não nasce só em inauguração com fita e tesoura. Nasce no cotidiano.
E no hino, novamente aquele link com a música.
Outra marca importante daquele governo: o cumprimento aos horários. Ele lembrou que o público sabia que os eventos começavam “absolutamente no horário, jamais depois do horário”.
Eu lembro como se fosse ontem, quando no evento de posse dos secretários municipais, no antigo Centro Cultural Elói Urnau, o diretor do Saae à época, Norberto Neumeister (em memória) chegou atrasado e “levou um pito” em público do jovem prefeito. Naquele puxão de orelha, Aríston já dava o tom de que não iria à reeleição: “Esse governo tem hora pra começar e hora para terminar”, avisou.
Desenvolvimento acima da reeleição
Aqui está o miolo da entrevista: Aríston e Renato Kaefer (a dupla, como ele diz) teriam decidido não disputar a reeleição. Era a primeira vez que a legislação brasileira permitia a reeleição. Mesmo podendo, eles preferiram focar em um projeto de desenvolvimento e geração de empregos.
Ele descreve o fim dos anos 1990 como época de fila por emprego, não por consulta. E crava: atraíram empresas, geraram postos de trabalho e colocaram isso acima do jogo eleitoral. Só que política detesta vácuo. E vácuo, em eleição, costuma ter dono.
Aríston chama a decisão de “erro político”. E dá para ouvir, nas entrelinhas, aquele lamento que muita liderança já viveu: “fiz o que achava certo, mas o certo nem sempre ganha”.
Lei de Responsabilidade Fiscal
O final do mandato, segundo ele, foi marcado pela chegada da Lei de Responsabilidade Fiscal em maio de 2000, exigindo ajuste pesado nas contas e travando ações num período em que a população quer exatamente o contrário: resposta, obra, movimento.
O que era para ser transição virou sufoco. E Aríston relata um episódio que o derrubou de vez: projetos e recursos que, na visão dele, teriam sido barrados por forças políticas, não “contra o prefeito”, mas contra o município. É a parte em que a narrativa deixa de ser histórica e vira humana.
Depressão e a posse sem despedida
O trecho mais forte (e talvez mais honesto) é quando Aríston explica por que não foi à posse do sucessor Edson Wasem (sim, Marcio Rauber não foi o primeiro a fazer isso): estava em depressão, medicado, “num estado cinzento”. Não romantiza. Não dramatiza para ganhar aplauso. Só descreve.
E isso muda a chave do leitor: o “final melancólico” não foi só político. Foi pessoal. Foi uma retirada que, por muito tempo, pareceu silêncio. Mas tinha dor.
A entrevista falhou ou talvez o próprio Aríston tenha condicionado. Não se tocou no polêmico cheque do Conselho dos Municípios Lindeiros e nem do vício nas loterias. Fatos obscuros, mas que sempre correram à boca pequena e que certamente tiveram influência nesse final melancólico do seu governo.
A política de hoje
Aríston admite que não acompanha detalhes do racha entre Marcio Rauber e Adriano Backes, mas faz a leitura que qualquer veterano faz sem precisar de Wi-Fi: grupo dividido tende a sofrer na próxima eleição, a menos que reate, porque política também tem dessas reconciliações “milagrosas”.
Ele também cutuca o velho drama regional: Oeste sem voz forte porque divide voto demais. E manda a frase que resume a escola antiga: “dividir é perder”. Dói porque é simples e simples porque é verdade.
O legado que fica: a voz e a lição
No fim, a entrevista de Aríston vale por dois motivos:
Memória: porque recoloca no registro um ex-prefeito que marcou época, especialmente pelo verbo.
Lição: porque mostra o preço de acreditar demais na política como missão e se ferir quando ela vira negócio.
Aríston não volta para o jogo. Mas volta para a história da nossa cidade. E, numa cidade que adora discutir o amanhã, às vezes o melhor combustível é entender o ontem sem maquiagem.
