Desde 2019, quando o Paraná enfrentou uma de suas maiores crises hídricas, Marechal Cândido Rondon também passou a conviver com torneiras secas e reclamações constantes. O tema dominou debates nas eleições de 2020 e voltou com força em 2024.
Bairros como o Boa Vista sofriam com desabastecimento frequente. À noite, era preciso cortar água em algumas regiões da cidade para garantir o fornecimento durante o dia. Situação que, para muitos, parecia não ter solução rápida.
Hoje, falta água apenas em casos pontuais: um cano rompido, uma manutenção emergencial. A crise estrutural ficou no passado.
E essa virada acontece justamente no ano em que o Saae completa 60 anos.
O rombo invisível que drenava o sistema
Em conversa no Saae com o diretor Fábio Alexandre Regelmeier, o diagnóstico foi claro: o problema não era apenas produzir mais água, mas estancar perdas.
O índice era preocupante. Cerca de 32% da água produzida não chegava às torneiras. Era desperdício subterrâneo, silencioso e caro. Ou seja, quase um terço da água produzida nos poços e captações se perdia no caminho até às unidades consumidoras.
Com trabalho técnico intenso essa perda já foi reduzida para 23%. A meta é fechar o ano em 20%. Fábio destaca que a experiência e o comprometimento dos servidores do Saae foi funadamental para que isso acontecesse. O trabalho chegou inclusive a exigir monitoramento noturno, de madrugada. Mas, por que?
Quando a água escapa sob pressão por uma fissura no cano, ela gera ruído contínuo. Esse som se propaga pela tubulação e pelo solo e a base do trabalho de identificação dos pontos de vazamento é o som. De madrugada, com a cidade silenciosa, e utilizando aparelhos de escuta, é mais prático ao técnico localizar os vazamentos.
Foram centenas de vazamentos localizados e reparados. Pequenos pontos que, somados, faziam uma diferença enorme no sistema.
Enquanto há cidades que chegam a perder 50%, Marechal virou referência. Técnicos de outros municípios já entrar em contato para buscar informações sobre o modelo adotado aqui.
Um poço esquecido que virou solução
Outra medida estratégica foi a reativação de um antigo poço, parado há anos por baixa produtividade.
Após testes, constatou-se que o problema era mais simples: a substituição da bomba. O poço, localizado próximo à antiga Reveral, na confluência das avenidas Irio Welp e Rio Grande do Sul, voltou a operar e reforçar o abastecimento, especialmente na região central da cidade.
Às vezes, a solução estava ali, só precisava de atenção.
Água também é desenvolvimento
Com o sistema equilibrado, o município passou a garantir não apenas o abastecimento residencial, mas também ampliar o fornecimento para indústrias que precisam de muita água para operar, como Frimesa e Sooro.
Água tratada e regular é infraestrutura básica, mas também motor econômico.
60 anos de autonomia
Em 19 de agosto de 1966, pela Lei Municipal nº 223/66, nascia o SAAE de Marechal Cândido Rondon. O primeiro diretor executivo foi o ex-prefeito Arlindo Alberto Lamb.
Enquanto a maioria das cidades paranaenses depende da Sanepar, Marechal optou por um sistema próprio. E fez disso motivo de orgulho.
Nos anos 70 e 80, sob gestão de pioneiros como Benno Weirich, foram instaladas redes na área central e poços artesianos. O modelo de parceria com associações de linhas rurais garantiu água tratada a 100% do interior, algo raro no Estado.
Desde 2013, com a ETE Guavirá, o município ampliou o tratamento de esgoto e consolidou a política de saneamento.
Hoje são quase 22 mil ligações ativas e mais de 100 servidores. A autarquia é reconhecida nacionalmente pela gestão eficiente e pela parceria com associaiações rurais.
Para marcar as seis décadas, está prevista uma programação especial ao longo do ano, com eventos e ações alusivas à data.
Mais do que uma comemoração institucional, os 60 anos simbolizam algo maior: autonomia, planejamento e capacidade técnica.
A ETA definitiva e o próximo salto
A Estação de Tratamento de Água definitiva segue em obras na regição do Arrio Fundo, às marges da rodovia que liga ao distrito de Margarida. Quando estiver operando, deverá gerar sobra significativa de capacidade.
Com o problema da falta de água já resolvido, a água produzida pela ETA será uma sobra luxuosa, um capital para atrair novos empreendimentos para a cidade. Inclusive, já está em planejamento uma rede adutora ligando o reservatório do Boa Vista ao reservatório do Parque de Exposições, permitindo melhor distribuição da água tratada para outras regiões.
Segundo o diretor Fábio, a nova ETA exigirá operação enxuta, ou seja, um ou dois servidores darão conta da parte técnica, graças à automação. Mas, o espaço também abrigará laboratório, oficina que funcionam atualmente no centro da cidade, além de salas para visitas escolares.
Se antes abrir a torneira era motivo de apreensão, hoje é rotina. E isso, em tempos de crise hídrica global, é um feito e tanto.
Sessenta anos depois da criação, o Saae mostra que não é apenas uma autarquia. É parte da identidade rondonense.
