Não é todo dia que Marechal Cândido Rondon pauta a imprensa de todo o Paraná. Infelizmente, desta vez, não foi pelos índices de desenvolvimento ou pela alegria das nossas festas, mas por uma ocorrência policial envolvendo o chefe do Executivo municipal. O caso do prefeito Adriano Backes (Progressistas), encaminhado à delegacia na madrugada desta quarta-feira (21) sob suspeita de abandono de incapaz, correu o estado como rastilho de pólvora.

A notícia foi dada em primeira mão pelo Bibs Podcast e pelo Portal Rondon, este de propriedade do ex-vereador Josoé Pedralli, e rapidamente ecoou em grandes veículos de comunicação paranaenses. Sites de peso como o G1 (da Globo), a Banda B (Curitiba), o portal RIC (da Rede Record), A Rede (Ponta Grossa), O BemDito (Umuarama), além de uma miríade de outros sites e blogs, estamparam o ocorrido. O prefeito, flagrado com os filhos menores de idade “guardando lugar” na fila de uma escola municipal durante a madrugada, se viu no centro de um furacão midiático.

A árvore e a floresta

Mas se deixarmos a espuma da fofoca política baixar, o que resta na superfície é um problema muito mais denso e preocupante do que a presença ou ausência de um adulto responsável por algumas horas. A repercussão do caso revela, nas entrelinhas, a humilhação silenciosa a que pais rondonenses são submetidos anualmente: a necessidade de dormir em calçadas, enfrentar o sereno e a insegurança da madrugada, apenas para garantir o direito constitucional de matricular seus filhos na escola pública.

Enquanto as redes sociais ferviam com ataques e defesas apaixonadas, alguns comentários lúcidos apontavam para essa realidade. “A que ponto se chega para ter acesso à educação! Enfrentar fila madrugada a dentro, talvez dias na fila… isso sim é uma vergonha e humilhação nesse país”, desabafou um internauta.

O tribunal da internet

A repercussão local foi um prato cheio para a polarização. De um lado, a oposição e críticos do “abandono”, questionando a postura do pai e gestor. “Com o salário que o prefeito ganha, poderia pagar escola particular e deixar a vaga para quem realmente necessita”, apontou um comentário, referindo-se aos vencimentos do mandatário. Outros foram mais ácidos sobre a conduta: “Largar na escola é melhor do que largar no bar”.

Do outro lado, a defesa veio com o argumento da “igualdade”. Para muitos, o fato de o prefeito submeter seus filhos à mesma fila que o cidadão comum foi um ato de honestidade, não de negligência. “Se o filho do prefeito estava em fila de espera, parabéns. Não estava pegando vaga de ninguém, furando fila”, defendeu um morador. Outros condenaram o que chamaram de oportunismo político na denúncia: “Só foi chamado porque era filho do prefeito, se não fosse iria passar em branco”.

Houve ainda quem relativizasse a gravidade da situação diante de outros problemas sociais. “Engraçado, agora alguém se preocupa que os filhos do prefeito estão na rua… mas nas festas por aí a piazada de 12, 14 anos está festando até seis da manhã e está tudo liberado”, comparou um rondonense.

O fato, sem maquiagem

Para quem esteve em Marte nas últimas 24 horas: a Polícia Militar e o Conselho Tutelar foram acionados por volta das 2h da manhã para verificar crianças desacompanhadas em frente a uma escola no Loteamento Alto Boa Vista. Tratavam-se dos filhos do prefeito, de 9 e 12 anos (alguns dizem ter 14).

Backes se apresentou, confirmou que as crianças guardavam lugar na fila, mas alegou que não estavam sozinhas, dado o movimento de outros pais no local. O prefeito encaminhado à Delegacia de Polícia, onde foi ouvido e liberado. O caso acabou sendo arquivado por que a autoridade policial entendeu que não se tratava de um caso de “abandono”, uma vez que as crianças estava, em um local público, com dezenas de adultos presentes, sem indício concreto de risco imediato às crianças. 

O que realmente ficou exposto

O episódio é lamentável sob vários aspectos. É triste ver crianças expostas, é triste ver a exploração política de fatos privados, mas é tragicamente triste constatar que, em 2026, em uma cidade desenvolvida como Marechal Cândido Rondon, a “fila da madrugada” ainda seja o vestibular de sofrimento para o ensino básico.

Se o prefeito errou ou não na tutela dos filhos, a Justiça dirá. Mas que a administração pública  (e aqui não falo só do atual gestor, mas de um sistema todo) erra ao permitir que filas de madrugada sejam necessárias, isso o povo já sentenciou.

One Reply to “Prefeito na delegacia e pais na calçada: o retrato da educação que dorme na fila”

  1. Não acredito que falte vaga para estudar, a fila se deve ao fato de utilizar este ou aquele colégio. Com relação a abandono acredito que seja o oportunismo de políticos sujos em se aproveitar da situação.

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