O Policial Fábio apareceu impecável. Terno e gravata bem cortados, cabelo tão alinhado que a cera refletia a luz do plenário a ponto de quase atrapalhar o foco da câmera dla transmissão on-line, barba milimetricamente desenhada e um bigode exuberante, digno de respeito e selfie.
Se não fosse a solenidade, dava até para confundir com formatura de oficial.
Mas não era. Era posse. E daquelas que não só iluminam o plenário, como mexem com a política local.
Foi assim que na manhã desta segunda-feira (26), Fábio Fockink, o Policial Fábio (PL), assumiu oficialmente uma cadeira na Câmara de Marechal Cândido Rondon após decisão da Justiça Eleitoral que anulou os votos da Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) nas eleições de 2024.
O efeito prático é a saída de Fernando Nègre (PT) e a entrada de Fábio. A mudança mexe exatamente nos dois polos que hoje dividem o Brasil: PT de Lula de um lado, PL de Bolsonaro do outro.
Com a saída do único representante do PT, o PL de Jair Bolsonaro agora conta com três vereadores: além do estreante Fábio, seguem na bancada Iloir de Lima (PL), o Padeiro, e Marcos Roberto Spohr (PL), o Sargento Spohr.
Ideologia escancarada
No discurso de posse, Fábio não tentou agradar gregos e troianos. Foi direto ao ponto ao criticar a ideologia que hoje governa o país, numa crítica clara ao presidente Lula. Exatamente o oposto do que costumava fazer Nègre da tribuna.
Falou em valores, responsabilidade, Deus, “oposição” consciente e deixou claro que não acredita em silêncio político nem em mandato decorativo.
PL cresce, oposição encolhe
Numericamente pode parecer pouco, mas politicamente o impacto é grande. O clima da Câmara muda. E os cálculos para as próximas votações também. Pelo menos os sinais apontam para esse caminho. Tudo indica que sai um vereador declaradamente de oposição e entra alguém bem mais próximo da base do governo municipal.
Embora Nègre não fosse uma voz isolada de oposição, a entrada de Fábio tende a facilitar a vida do prefeito Adriano Backes (Progressistas). Os sinais de alinhamento são evidentes: Fábio tem sido presença frequente em atos oficiais do Paço. O prefeito Adriano Backes fez questão de prestigiar a posse, acompanhado de secretários, e deixou as portas da prefeitura escancaradas ao novo vereador.
No seu discurso manteve o tom republicano, mas acolhedor. “Fomos adversários políticos, mas queremos o bem comum. As portas do Paço Municipal estarão abertas, como estão para todos os vereadores”, declarou Backes. O prefeito ainda reforçou que precisará muito de Fábio para o crescimento e desenvolvimento de Marechal Cândido Rondon.
E teve um detalhe simbólico, quase poético: o presidente do PL, Arion Nasihgil, que foi adversário direto de Backes na última eleição, chegou atrasado à cerimônia.
Atrasado na posse… e, ao que tudo indica, também um passo atrás na condução política local do próprio partido, pois os outros dois vereadores do partido já estão debaixo das asas de Backes.
Espírito de corporação
O plenário estava lotado. Policiais de toda a região, autoridades, familiares e curiosos. Policiais da ativa misturados a policiais da política. Com Fábio, a atual legislatura passa a ter três vereadores oriundos das forças de segurança, ao lado de Welyngton e Spohr.
A segurança pública ganhou não só voz, mas bancada.
No fim das contas…
O PL sai maior. A oposição, menor. O Executivo, mais confortável.
E a Câmara entra numa nova fase, onde o discurso pode até ser de enfrentamento nacional, mas o alinhamento local parece seguir outro roteiro, bem mais próximo do Paço Municipal do que da trincheira da oposição.
Entre o brilho do cabelo e a imponência do bigode, Fábio estreia deixando claro que chegou para ocupar espaço. Na política, como no visual, manter tudo alinhado dá trabalho. E, às vezes, basta uma rajada de vento para mostrar quem tem estrutura… e quem só tem cera.
