Enquanto alguns ainda estão escolhendo a carta da rodada, outros já apertaram a sela e puxaram as rédeas. Na política de Marechal Cândido Rondon, o início do ano escancarou um contraste incômodo: de um lado, o prefeito Adriano Backes organiza o jogo, distribui tarefas e sela o cavalo de Hussein Bakri; do outro, Marcio Rauber parece assistir à partida sentado, com o baralho na mão, mas sem pressa alguma de bater a mesa.

O calendário virou, o ano político começou, mas o que se vê na prática é uma Marechal Rondon em marcha lenta quando o assunto é articulação eleitoral. Não é impressão isolada. Até eu tenho sido cobrado nas ruas, nos cafés e até na fila do pão: “E aí, nada de novidade? A política morreu? Agora é só IA?”. A resposta é simples e incômoda: não morreu, mas anda estranhamente silenciosa.

E, nesse vazio geral, um silêncio específico chama ainda mais atenção.

O sumiço que fala alto

Marcio Rauber não é um nome qualquer. Ex-prefeito, presidente local do União Brasil, figura recorrente em qualquer conversa sobre disputa majoritária ou proporcional, ele vinha, até pouco tempo atrás, falando abertamente em candidatura a deputado estadual. Não era bastidor, era discurso público.

Hoje, o tom mudou. O discurso esfriou. E a presença, mais ainda.

Para alguém que ocupa um cargo na Casa Civil do Governo do Estado, com a missão formal de representar a região Oeste, a ausência é visível demais para ser ignorada. Rauber tem sido pouco visto em agendas oficiais, inaugurações, anúncios ou compromissos regionais.

Nos bastidores, já virou ironia. Há quem aposte que ele anda mais perto da mesa de baralho do que das mesas de negociação (que fique claro: nunca vi, é figura de linguagem). Mas a pergunta, com a acidez necessária, acaba sendo inevitável: a função serve para articular politicamente a região ou apenas para garantir o salário no fim do mês?

Sem partido, sem chão

Independentemente do tom da crítica, existe uma regra básica na política: quem quer ser candidato precisa, antes de tudo, ter partido. Marcio tem um  (União Brasil) e mais do que isso, preside a sigla no município. No papel, tudo certo.

Na prática, nem tanto.

O problema é que o União hoje integra uma federação com o PP, formando a chamada União Progressista. Na prática, viraram uma só engrenagem para fins eleitorais. E, nesse novo arranjo, Rauber perdeu espaço. Espaço político e espaço de projeto.

Se quiser insistir no projeto de disputar uma vaga na Assembleia Legislativa, ele terá de buscar abrigo em outra legenda. E aí surgem as perguntas que rondam os corredores do poder: quem daria guarida? Republicanos? PL?

No caso do PL, o desafio é ainda maior. O partido foi oposição dura ao governo Rauber e hoje abriga vereadores como Iloir Padeiro e o Sargento Spohr, ambos já alinhados com o governo Backes e Sauer. Para isso acontecer, o deputado federal Giacobo, presidente estadual da sigla, teria que operar uma guinada digna de contorcionista político.

Enquanto isso, o tempo passa. E tempo, em ano pré-eleitoral, costuma ser cruel com quem hesita.

A debandada da base e o cavalo selado

Mais grave do que a indefinição partidária é a perda silenciosa de base. Política se faz com exército, e o de Rauber está rareando.

Vereadores que um dia caminharam ao seu lado, inclusive dentro do próprio União Brasil, partido do vice-prefeito Vanderlei Sauer e da vereadora Marciane Specht, já assumiram compromissos claros com outros projetos.

Do outro lado da rua, o governo municipal não perde tempo. Adriano Backes já escolheu seu cavalo e apertou a sela: Hussein Bakri.

O objetivo é direto e sem rodeios: fazer de Bakri, novamente, o deputado estadual mais votado em Marechal, repetindo 2022, quando ele passou da casa dos 7 mil votos. Vale lembrar que naquela eleição foi com o apoio decisivo, ironicamente, do próprio Marcio Rauber.

Hoje, a máquina trabalha para manter esse capital político. E faz isso sem a menor necessidade da figura do ex-prefeito.

Tudo diferente

A política rondonense deixou de ser aquele duelo previsível dos tempos de Elio Rusch e Ademir Bier, isso pra não recordar de Werner Wanderer e Gernote Kirinus. Tudo está mais povoado e mais fragmentado.

Pela esquerda, o vereador Fernando Nègre mantém seu nome em evidência e trabalha uma candidatura à Assembleia, mesmo após turbulências jurídicas recentes. No outro campo, o vereador João Eduardo dos Santos, o Juca, se consolida como principal voz da oposição e também mira o legislativo estadual.

A isso se somam os velhos conhecidos: os “paraquedistas” de fora, que sempre aparecem para beliscar votos preciosos no município.

Nesse cenário pulverizado, ausência não é neutralidade. É desvantagem.

O risco real de virar passado

Minha leitura é pragmática: se Marcio Rauber não sustentar uma candidatura a deputado estadual em 2026, ele corre o risco de decretar sua irrelevância política a médio prazo. Recuar agora significa chegar enfraquecido em 2028. Ou talvez nem chegar a 2028 como eventual candidato a prefeito.

O plano final sempre pareceu claro: enfrentar seu sucessor e desafeto, Adriano Backes. Mas a política não espera quem aposta no cansaço alheio.

Vale lembrar: o próprio Rauber enfrentou enormes dificuldades nos dois primeiros anos de seu mandato. Teve problemas de gestão, críticas severas e uma rebelião na Câmara que resultou no famoso G8. O fantasma da CPI das Pedras, que poderia ter lhe custado o cargo.

Apostar que o governo Backes fracassará a ponto de abrir caminho natural em 2028 é um tiro no escuro. O atual prefeito tem a caneta na mão, recursos previstos e obras para entregar.

Se Marcio continuar jogando baralho enquanto os outros selam cavalos, pode descobrir tarde demais que o jogo virou e que o espaço político que ele deixou vazio já foi ocupado por quem, ao contrário dele, não ficou esperando a próxima carta.

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